Meio Físico/Biótico


Evolução Geológica

Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia

UMA LONGA HISTÓRIA GEOLÓGICA....

O município de Presidente Prudente localiza-se em uma estrutura geológica (morfoestrutura) chamada Bacia Sedimentar do Paraná (FIGURA 1).

Grande parte (75%) da Bacia Sedimentar do Paraná ocupa a porção Centro-sul do Brasil, desde o estado do Mato Grosso até o estado do Rio Grande do Sul. Além do Brasil, ela também se distribui pelo nordeste da Argentina, pela porção leste do Paraguai e norte do Uruguai (Figura 1).

Figura 1 – A Bacia Sedimentar do Paraná

As bacias sedimentares são depressões na crosta terrestre que, com o tempo, foram sendo preenchidas por sedimentos (partículas de rochas, restos de animais e vegetais, fragmentos de conchas, ossos, recifes de coral).

A Bacia Sedimentar do Paraná se formou entre 460 e 65 milhões de anos atrás. Quando a depressão (ou subsidência da crosta) que deu origem à Bacia Sedimentar do Paraná começou a se formar, havia um único continente chamado Pangeia (Figura 2).

Figura 2 - Supercontinente Pangeia, que existiu entre 200 a 540 milhões de anos, durante a era Paleozoica.

Ao longo de quase 400 milhões de anos, essa depressão foi sendo preenchida e, em função do próprio peso e pressão dos sedimentos, foi sofrendo deformações e novas subsidências enquanto os sedimentos se transformaram em rochas sedimentares (Figura 3).

Figura 3 – Formação das rochas sedimentares

Para entender melhor as diversas fases de formação da bacia sedimentar, os geólogos classificam as camadas de rochas sedimentares, de acordo com sua composição, idade, origem ou outras propriedades similares. Assim, cada camada é chamada de Formação e o conjunto de Formações que apresentam similaridades, recebe o nome de Grupo.

Assim, podemos descrever a formação da Bacia Sedimentar do Paraná de acordo com os seguintes Grupos:

1) Grupo Paraná (Quando o sertão virou mar...)

  • No início da formação da Bacia Sedimentar do Paraná, há cerca de 400 milhões de anos atrás, uma imensa área deprimida foi invadida pelo mar proveniente da costa oeste da América do Sul. Nessa época a Cordilheira dos Andes ainda não existia. As rochas formadas por sedimentos depositados nessa fase marinha pertencem ao Grupo Paraná (Formações Furnas e Ponta Grossa).

2) Grupo Tubarão (A Era do Gelo)

  • Concomitante à invasão do mar durante os períodos Carbonífero e Permiano (entre 350 e 260 milhões de anos atrás) ocorreu uma grande glaciação no hemisfério Sul. Os sedimentos depositados nesta fase, deram origem às rochas de origem glacial na Bacia do Paraná. As rochas deste período, incluindo tilitos, diamictitos, alguns arenitos, varvitos e folhelhos, compõem a Formação Itararé (Grupo Tubarão). Os “varvitos de Itu” datam desse período (Figura 4).

Figura 4 - Parque Municipal do Varvito – Itu, SP. Rochas formadas em um lago glacial.

  • Após o declínio das condições glaciais surgiu no continente, a flora Glossopteris, gênero do filo Gimnospermas. Os restos desses vegetais, depositados na Bacia Sedimentar do Paraná, originaram extensos depósitos de carvões que são extraídos tanto na América do Sul (Formação Rio Bonito) quanto na África do Sul.

3) Grupo Passa Dois (Evidências da Deriva Continental)

  • Após a glaciação houve o recuo do mar e o ambiente de bacia sedimentar transformou-se gradualmente em continental. Essa fase de transição é representada pelo Grupo Passa Dois (Formação Irati, Formação Serra Alta, Formação Teresina, Formação Corumbataí e Formação Rio do Rasto).

A Formação Irati é muito importante para a Teoria da Deriva Continental. Ela guarda fósseis de pequenos répteis chamados Mesossaurus brasiliensis. Esses fósseis são semelhantes aos encontrados na África do Sul. Assim, comprovam que no passado o continente sul-americano esteve unido ao continente africano (Figuras 5 e 6).

Figura 5 – Fóssil de Mesossarus Brasilensis em rocha calcária da Formação Irati.

Figura 6 – Distribuição geográfica dos mesosaurídeos.

Além disso, a Formação Irati é considerada como potencial geradora de petróleo pela presença de folhelhos betuminosos, também conhecidos erroneamente como xistos betuminosos. Essas rochas armazenam óleo e gás. Atualmente, a exploração desse gás nas porções paulista e paranaense da Bacia Sedimentar do Paraná vêm sendo cogitada. Entretanto, há que se considerar os sérios impactos ambientais negativos que isso pode trazer à nossa região, sobretudo, às reservas subterrâneas de água (aquíferos) (Figura 7)

Figura 7 – A ameaça da exploração do gás dos folhelhos betuminosos na Bacia Sedimentar do Paraná.

Para saber mais:

  • Assista os vídeos GasLand (contrário à exploração) https://www.youtube.com/watch?v=k3eYX7LaLLg

  • Veja o a ação do Ministério Público Federal para impedir a exploração no oeste paulista: http://mpf.jusbrasil.com.br/noticias/159415020/mpf-sp-pede-suspensao-de-licitacao-para-exploracao-de-gas-de-xisto-no-oeste-paulista

4) Grupo São Bento (Deserto e erupções vulcânicas)

A deposição dos sedimentos do Grupo São Bento (Formações Pirambóia, Botucatu e Serra Geral) ocorreu em um ambiente já totalmente continental.

A Formação Pirambóia é constituída por arenitos de origem fluvial, evidenciando um clima úmido. Entretanto, a Formação Botucatu, com grandes espessuras de arenitos de origem eólica evidenciam a ocorrência de uma grande desertificação: o "deserto Botucatu", semelhante ao deserto do Saara e com área superior a um milhão de km². (Figuras 8 e 9)

Figura 8 – Arenito na Rodovia Castelo Branco, Km 170, sentido São Paulo. (Formação Pirambóia)

Figura 9 – Afloramento de arenitos da Formação Botucatu

Pelo fato dos arenitos da Formação Botucatu se constituírem por areias finas e médias depositadas pelo vento durante o período desértico, essas rochas possuem boa porosidade e permeabilidade (Figura 10), o que permitiu o posterior armazenamento de água, quando o clima se tornou novamente úmido. Assim, formou-se o importante Aquífero Guarani, (Figura 11).

Figura 10 – Porosidade e permeabilidade

Figura 11 – O Aquífero Guarani

O Aquífero Guarani se estende por cerca de 1,2 milhões de Km², dos quais 840 mil Km² em território brasileiro e o restante se encontra nos territórios do Paraguai, Argentina e do Uruguai. Possui um volume estimado em 45 mil km³ de água.

Ainda durante essa fase desértica, inicia-se um evento muito importante da história geológica de nosso planeta. Nesta época (cerca de 200 a 230 milhões de anos) iniciou-se a abertura do Oceano Atlântico com a separação da América do Sul e África.

A violência do fenômeno produziu grandes fendas (rifts) na superfície dos continentes por onde houve ascensão de magmas basálticos. Os grandes derrames de basalto (Figura 12) assim formados na Bacia do Paraná recebem o nome de Formação Serra Geral. As rochas resultantes (basaltos e diabásios), ricas em ferro, ao serem decompostas dão origem aos Nitossolos (conhecido como Terra roxa) que são solos de alta fertilidade.

Figura 12 - Derrames de basalto na Bacia do Paraná-Cânion Fortaleza, Aparados da Serra-RS/SC. Foto: Luiz Oliveira.

Esse evento não produziu a formação de vulcões, sendo, portanto, chamado de vulcanismo fissural (extravasamento do magma por fendas). Foram sucessivas camadas de lavas que recobriram e se intercalaram aos arenitos da Formação Botucatu.

Esses grandes e extensos derrames de basalto também contribuíram para a formação do aquífero Guarani (Figura 13)pois, embora o arenito tenha ficado coberto pelo basalto, restaram algumas bordas descobertas, denominadas áreas de afloramento ou de recarga. Por ali, as águas das chuvas passaram a penetrar lentamente ao longo de milhões de anos, formando o reservatório de águas subterrâneas. Desse modo, são áreas que necessitam de atenção pois usos indevidos, tais como o emprego de agrotóxicos na agricultura, podem contaminar o aquífero.

Figura 13 - A abrangência do Sistema Aquífero Guarani, com áreas de afloramento (ou recarga) e de confinamento das águas.

4) Grupo Bauru (No tempo dos Dinossauros)

Após a grande perturbação tectônica, nova calmaria voltou a se instalar na região propiciando a deposição de arenitos continentais do Grupo Bauru (Período Cretáceo, há cerca de 135 milhões de anos).

As rochas desse Grupo são ricas em fósseis, inclusive de dinossauros.

O Grupo Bauru é constituído pela Formação Caiuá, Formação Santo Anastácio, Formação Adamantina e Formação Marília.

A Formação Caiuá é constituída por sedimentos de ambiente continental semi-árido a desértico. Esses sedimentos indicam que há cerca de 135 milhões de anos atrás existiu na região um grande deserto, o chamado Deserto Caiuá.

Acima da Formação Caiuá, depositaram-se os sedimentos que deram origem às rochas da Formação Santo Anastácio.

Em seguida (ou acima), está a Formação Adamantina que é a que ocorre (ou aflora) no município de Presidente Prudente, SP. Ela é formada por depósitos fluviais com arenitos finos a médios, podendo apresentar cimentação ou nódulos carbonáticos. Encerrando o ciclo de deposição na Bacia Sedimentar do Paraná, encontra-se a Formação Marília, que não ocorre em nosso município.

Após a deposição dos sedimentos da Formação Marília, a Bacia Sedimentar do Paraná, juntamente com outras áreas do leste da placa tectônica sul-americana foram soerguidas como consequência do encontro de nossa placa com a placa de Nazca (a oeste), que resultou na formação da Cordilheira dos Andes. Esse soerguimento, ao elevar a bacia sedimentar, marca o fim de sua fase ativa e a área agora, ao invés de acumular sedimentos, sofre desgaste pelos processos erosivos.

O trabalho erosivo das águas pluviais (das chuvas), modela as colinas, transportando os sedimentos para a rede drenagem. Parte desse material (areias, argilas e cascalheiras), deposita-se nos fundos de vales, formando terraços e planícies fluviais. Esses pequenos depósitos recentes são chamados de “depósitos aluvionares”.

Após conhecer a história de formação dos diversos tipos de rochas, especialmente da Bacia Sedimentar do Paraná, mais informações podem ser obtidas no site do LABORATÓRIO DE GEOLOGIA da FCT/UNESP, Campus de Presidente Prudente, SP, Brasil.

youtube

A terra dos Dinossauros

Encarnita Salas Martin

A importância da Bacia Sedimentar do Paraná (e Presidente Prudente) para a Paleontologia.

O material (partículas de rochas, restos de animais e vegetais, fragmentos de conchas, ossos, recifes de coral) que preencheu a Bacia Sedimentar do Paraná tem origens diversas e retratam diferentes fases evolutivas da história geológica, climática e biológica do planeta. Portanto, se constituí em uma importantíssima fonte de informações sobre o passado da Terra, principalmente no que diz respeito aos tipos de fauna e flora, aos tipos de clima e constituições do relevo que já existiram na superfície.

A deposição dos sedimentos do Grupo Bauru (último Grupo de deposição) ocorreu no Período Cretáceo (Era Mesozoica), que corresponde ao período de “apogeu” dos grandes répteis. Assim, a rochas que se formaram a partir desses sedimentos são ricas em fósseis, inclusive de dinossauros. Até o momento já foram encontrados diversos restos fósseis de espécies de dinossauros de grande porte, do grupo dos saurópodes, incluindo o Maxakalisaurus topai (Figura 14) e o Austroposeidon magnificus, maior dinossauro já encontrado no Brasil (Figura 15), cujos ossos foram encontrados no município de Presidente Prudente, SP.

Figura 14 - Réplica do esqueleto do dinossauro Maxakalisaurus topai no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Figura 15 - Austroposeidon magnificus

O Austroposeidon magnificus (Figura 16), media cerca de 25 metros de comprimento (tamanho comparável a dois ônibus urbanos) e viveu no período Cretáceo, há cerca de 70 milhões de anos atrás. Fez parte do grupo dos titanossauros, herbívoros pescoçudos que foram os maiores animais terrestres de todos os tempos, de pescoço e cauda longos e crânio pequeno. Esses animais viviam no supercontinente da Gondwana, onde hoje são América do Sul, África, Índia, Antártica e Austrália. (http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2016/10/1820069-cientistas-apresentam-maior-dinossauro-ja-descoberto-no-brasil.shtml)

Em Presidente Prudente e seus arredores também foram encontrados outros importantes registros fósseis, como o Podocnemis elegans , depois batizada de Bauruemys elegans (Figuras 16 e 17) e o Pepesuchus deiseae (Figuras 18, 19 e 20) , descobertos pelo Professor José Martin Suárez (Pepe), da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Presidente Prudente.

O Professor Pepe, foi uma pessoa que muito contribuiu para pesquisas paleontológicas no Brasil. Espanhol, nascido em Sevilha, ele migrou para o Brasil em busca de trabalho e acabou estabelecido na região de Presidente Prudente. Aqui, desenvolveu interesse por estudos paleontológicos, tendo descoberto em 1969 uma nova espécie de tartaruga, no Km 736 de uma antiga ferrovia que liga as cidades de Presidente Prudente e Pirapozinho, num sítio paleontológico nomeado de “Tartaruquito”, conhecido por conter dezenas de fósseis de uma tartaruga pré-histórica chamada de Bauruemys elegans.

Durante mais de 40 anos, Pepe coletou, trabalhou e identificou muitas espécies fósseis, tudo sem estudo especializado. Contribuiu enormemente com diferentes tipos de pesquisa na área até seu falecimento, em 2007. Inclusive auxiliou o famoso paleontólogo brasileiro, Ivo Price. Seu legado dura até hoje, sendo amplamente reconhecido pela comunidade científica brasileira, ao ponto de seu nome batizar o Pepesuchus, animal que ele ajudou a descobrir.

O Pepesuchus foi um réptil que media 3 metros de comprimento, seu corpo e crânio eram muito semelhantes aos dos jacarés atuais, sendo que ele também possuía hábitos aquáticos. Tinha narinas e olhos adaptados para ficar acima da superfície da água, uma mandíbula triangular com numerosos dentes. Deve ter vivido em rios e lagos, alimentando-se principalmente de peixes, tartarugas ou até de pequenos animais que passassem no seu caminho. Era da família dos peirossaurídeos, um grupo de répteis bem conhecidos do Cretáceo e que viveram no continente de Gondwana. Eles eram animais adaptados a vários ambientes, desde aquáticos ou terrestres.

O fóssil coletado por José Martin Suárez, que corresponde a um crânio quase completo, provavelmente também oriundo do sítio paleontológico “Tartaruguito”, foi doado ao Museu de Ciências da Terra, na cidade do Rio de Janeiro, e foi utilizado para descrever e batizar este espécime, apresentado no meio acadêmico em 2011 por uma equipe de paleontólogos.

O nome Pepesuchus é uma homenagem a José Martin Suárez. Já o nome da espécie, deiseae, é uma homenagem à Deise Dias Rêgo Henriques, paleontóloga que vem trabalhando e cuidando atenciosamente do acervo de fósseis do Museu Nacional.

Em 2003, no mesmo sítio paleontológico foram descobertos restos de um único indivíduo com um esqueleto quase completo, contando com crânio, mandíbula, vértebras sacrais e caudais, junto com outros restos.

Figura 16 - Quelônios do Sítio Fossilífero de Pirapozinho/SP descobertos pelo Prof. Dr. José Martin Suárez da FCT-UNESP

Figura 17 - Prof. Pepe com a tartaruga fóssil Podocnemis elegans

Figura 18 - Reconstrução do Pepesuchus deisae e do ambiente onde teria vivido há cerca de 70 milhões de anos.

Figura 19 - Fóssil da cabeça do Pepesuchus deisae.

Figura 20 – Molde sugerindo como seria a cabeça do Pepesuchus deisae feito pelo paleoartista Maurílio Oliveira, a partir do fóssil do crânio e de duas mandíbulas.

  Referências Bibliográficas

FRANÇA, A. B. e OLIVEIRA, C. G. Bacia do Paraná: Rochas e solos. Palestra Petrobrás. Disponível em: http://www.redeaplmineral.org.br/biblioteca/eventos/1b0-seminario-apl-do-sudoeste-goiano/01%20-%20Palestra%20Almerio%20por%20Claudinei.pdf

HASUI, Y. et al. Geologia do Brasil. Ed. Beca, São Paulo, 2012.

MENDES, J. C. Elementos de estratigrafia. EDUSP: São Paulo, 1984, p.429-468

MILANI, E. J. et al. Bacia do Paraná. Boletim Geociências. Petrobras, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 265-287, maio/nov. 2007 p. 265

PRESS, F. et al. Para entender a Terra. Porto Alegre: Ed. Bookman, 2006

SILVA, A. J. P. et al. Bacias Sedimentares Paleozóicas e Meso-Cenozóicas Interiores. In: BIZZI, L. A.; SCHOBBENHAUS, VIDOTTI, C.R. M. E GONÇALVES J. H. (eds.) Geologia, Tectônica e Recursos Minerais do Brasil, CPRM, Brasília, 2003.

TEIXEIRA, W. et al. Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de Textos, 2000

Os vídeos foram produzidos a partir de informações obtidas em HASUY et all (2012); SILVA et al (2003) e MILANI et all (2007).

Imagens utilizadas no vídeo 1:
  • Glossoptéris:
    https://farm4.static.flickr.com/3901/14574182750_51af205c93_m.jpg

  • Dunas: http://meioambiente.culturamix.com/blog/wp-content/gallery/dunas/dunas-3.jpg

  • Vulcanismo fissural: http://3.bp.blogspot.com/-Obx7y5IHiVY/VnVB_vxcpdI/AAAAAAAANp8/2RuOkI967Ko/s1600/multimediaFile-24.jpg

  • Maxakalisaurus topai https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTqLzBvE4-60CQonnn18PnJPNDxyfgD4nUBR0Ih2kMX7LvD_pC_

  • Erosão http://2.bp.blogspot.com/-wBTnF7SyJkk/TjkXj7LCKGI/AAAAAAAAADM/ECqMzgj7nb4/s1600/Erosao_5.jpg

  • Colinas https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSQsu7Svb_IohAMmWZtuAEpX21sVhVANTxn-xIwJedU9LrtfRs2 Musica Vídeo 1: Bitter Sweet Symphony (The Verve) - The Royal Philharmonic Orchestra

A terra dos Dinossauros

CAMPOS, D. A.; OLIVEIRA, G. R.; FIGUEIREDO, R. G.; RIFF, D.; AZEVEDO, S. A. K.; CARVALHO, L. B. & KELLNER, A. W.A. (2011). On a new peirosaurid crocodyliform from the Upper Cretaceous, Bauru Group, southeastern Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências 83 (1): 317–327.

IORI, F. V.; CARVALHO, I. S.; SANTOS, E. F.; DORO, L. F.; ARRUDA CAMPOS, A. C.. Ocorrência de Pepesuchus deiseae (Crocodyliforme) no Município de Catanduva, Estado de São Paulo (Bacia Bauru, Cretáceo Superior). In: XXII Congresso Brasileiro de Paleontologia, 2011, Natal - RN. Paleontologia: Caminhando pelo tempo, 2011. v. 1. p. 728-730.

IORI, F. V.; CARVALHO, I. S.; FERNANDES, M. A.; GHILARDI, A. M. Primeira ocorrência de Peirosauridae no município de Ibirá, estado de São Paulo (Bacia Bauru, Cretáceo Superior). In: XXII Congresso Brasileiro de Paleontologia, 2011, Natal - RN. Paleontologia: Caminhando pelo tempo, 2011. v. 1. p. 736-738.

Sites Acessados

http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/1501/n/novidades_na_fauna_pre-historica_brasileira/Post_page/7. Acesso em 28 de junho de 2017. http://www.faperj.br/?id=1920.2.6. Acesso em 28 de junho de 2017.


Relevo

Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia; João Osvaldo Rodrigues Nunes; Melina Fushimi

CONHECENDO AS FORMAS DE RELEVO...

A Geomorfologia é a ciência que estuda a gênese de formação do relevo, sendo Geo (Terra), morfo (forma) e logia (estudo).

A geomorfologia é baseada no tripé PROCESSOS, MATERIAIS e FORMA, se inter-relacionando a partir das relações entre processos endógenos (abalos sísmicos; vulcanismos; dobramentos; afundamentos e soerguimentos das plataformas; falhamentos e fraturamentos) e exógenos (ação climática local, regional e zonal; processo de meteorização; erosão e transporte de base rochosa; ação do vento e ação da água), nas escalas temporais e espaciais.

Neste aspecto:

[...] todo o relevo terrestre pertence a uma determinada estrutura (materiais) que o sustenta e mostra um aspecto escultural (forma) que é decorrente da ação do tipo climático atual e pretérito (processo), que atuou e atua nessa estrutura. Deste modo, a morfoestrutura e a morfoescultura definem situações estáticas, produtos da ação dinâmica do endógeno e do exógeno” (ROSS, 1996: 308-09).

A partir dos conceitos de morfoestrutura e de morfoescultura, foi elaborado o Mapa Geomorfológico da América do Sul pelo professor Jurandir Ross (2015), onde apresenta as principais macroformas da América do Sul, como as megaestruturas dos Crátons, Cinturões Orogenéticos e Bacias Sedimentares herdadas do Gondwana (Figura 1).

Figura 1 - Macroforma do relevo da América do Sul.

Para elaboração do Mapa Geomorfológico do Brasil, Ross (1992) utilizou o mesmo critério conceitual, integrando aspectos morfoestruturais (Cinturões Orogenéticos e Núcleos Cristalinos Arqueados, Bacias Sedimentares, e Intrusões ou Coberturas Residuais de Plataformas) e morfoesculturais (Serras, Planalto, Depressões e Planícies)(Figura 2).

Figura 2 - Mapa geomorfológico do Brasil.

De acordo com o Mapa Geomorfológico do Estado de São Paulo (ROSS e MOROZ, 1997), o município de Presidente Prudente (Figura 3), esta localizado na porção oeste do estado de São Paulo, corresponde à unidade morfoescultural chamada Planalto Ocidental Paulista. Essa grande unidade é subdividida em unidades menores (Planalto Centro Ocidental, Planalto em Patamares Estruturais de Ribeirão Preto, Planaltos Residuais de Batatais/Franca, Planalto Residual de São Carlos, Planalto Residual de Botucatu e Planalto Residual de Marília).

Figura 3. Mapa Geomorfológico do Estado de São Paulo (ROSS e MOROZ, 1997).

A unidade do Planalto Ocidental Paulista onde situa-se o município de Presidente Prudente caracteriza-se por formas de relevo geradas por processos erosivos como colinas maiores de topos tabulares e colinas menores de topos convexos.

Geologicamente, predominam as rochas sedimentares da Formação Adamantina (Grupo Bauru) e os Sedimentos Aluvionares Quaternários (Figura 4).

Figura 4. Mapa Geológico do município de Presidente Prudente-SP.

As altimetrias variam, em média, de 300 a 700m e as declividades médias das vertentes estão entre 2% e 10% (FIGURAS 5 e 6).

Figura 5. Mapa hipsométrico do município de Presidente Prudente-SP.

Figura 6. Distribuição das classes altimétricas no município de Presidente Prudente.

Conforme podemos observar nas Figuras 6 e 7, em Presidente Prudente, predominam altitudes de 350 a 450 m. O ponto mais elevado do município (505m), localiza-se no setor nordeste do perímetro urbano, enquanto que o ponto de menor altitude (288m), localiza-se às margens do Rio do Peixe, no limite noroeste do município.

Quanto às declividades (clinografia), predominam aquelas inferiores a 6% e entre 6 e 12%, correspondendo, respectivamente, a 32 e 45%, totalizando estas 77% da área total do município. As declividades entre 12 a 20%, correspondem a 21%. Conforme se observa nas Figuras 7 e 8, as declividades entre 20 e 30% ocupam apenas 2% da área total e as declividades acima de 30% raramente ocorrem, ocupando menos de 1% do município.

Figura 7. Mapa clinográfico do município de Presidente Prudente-SP.

Figura 8. Distribuição das classes de declividades no município de Presidente Prudente.

Conforme Nunes e Fushimi (2010), o município de Presidente Prudente apresenta três compartimentos de relevo, que se associam com as seguintes formações geológicas e pedológicas (FIGURA 9):

  1. Topos suavemente ondulados das colinas convexizadas, onde predominam solos desenvolvidos (associação Latossolos Vermelhos) ou solos rasos a desenvolvidos (associação Argissolos Vermelhos). Em alguns setores, têm-se solos rasos (associação Neossolos Regolíticos) e afloramento dos arenitos da Formação Adamantina (IPT, 1981);

  2. Domínio das vertentes côncavas, convexas e retilíneas, com ocorrência de solos rasos a desenvolvidos (associação Argissolos Vermelhos) ou solos rasos (associação Neossolos Regolíticos). É frequente o afloramento dos arenitos da Formação Adamantina;

  3. Planícies aluviais e alvéolos, com a presença de solos hidromórficos (associação Planossolos e Gleissolos) e depósitos tecnogênicos (materiais de origem humana). Em alguns pontos, tem-se o afloramento dos arenitos da Formação Adamantina.

Figura 9. Mapa geomorfológico do município de Presidente Prudente-SP.

Foram observados dois padrões distintos de compartimentos de relevos em relação aos tipos de colinas e vertentes:

  • O primeiro padrão é encontrado com maior frequência no setor norte e sul do município. Possuí baixa rugosidade topográfica, com colinas maiores de topos amplos e aplanados, associados a vertentes longas e retilíneas, predominando declividade entre 5 a 10%, densidades de drenagem esparsa e amplas dimensões interfluviais, com presenças de planícies aluviais com morfologias de fundo de vale chato. O substrato geológico são as rochas sedimentares da Formação Adamantina (Grupo Bauru), sendo muito friáveis, formando solos profundos do tipo Latossolos. Estas características físicas demonstram baixa a média fragilidade ambiental a processo morfodinâmicos.

  • O segundo padrão é identificado mais no setor central do município. Apresenta rugosidade topográfica média, sendo de colinas menores, topos convexos, com predomínio de declividades acima de 20% e vertentes convexas, sendo que as côncavas são mais preponderantes nos setores de cabeceiras de drenagem em anfiteatros, vinculados aos canais de primeira ordem fluvial. Isto se reflete nas densidades de drenagem médias, com padrões dendríticos, dimensões interfluviais menores e morfologias de fundos vales encaixados em V. O substrato geológico são as rochas sedimentares das Formações Adamantina (Grupo Bauru), sendo menos friáveis devido a presença maior do carbonato de cálcio (agente cimentante), formando os Argissolos e Neossolos Litólicos. Estas características físicas indicam média a alta fragilidade ambiental a processo morfodinâmicos.

Detalhando o mapa geomorfológico de Nunes e Fushimi (2010), Moroz-Caccia Gouveia et al (2016) elabora o Mapa geomorfológico semidetalhado do município de Presidente Prudente, apresentando os Elementos de Vertentes e de Planícies Fluviais de forma detalhada (FIGURAS 10 e 11):

Figura 10. Mapa geomorfológico semidetalhado do município de Presidente Prudente-SP.

Figura 11. Legenda completa do Mapa Geomorfológico Semidetalhado do Município de Presidente Prudente-SP.

A Figura 12, apresenta o gráfico com a distribuição de cada elemento de vertente ou de planície na área do município:

Figura 12. Distribuição dos elementos de vertentes e de planícies fluviais no município de Presidente Prudente

Conforme se observa, no município predominam vertentes convexas, vertentes concavas e topos tabulares e convexos.

Em relação ao relevo da área urbana de Presidente Prudente-SP, este apresenta características diferenciadas entre os setores Leste e Oeste, tendo a Estrada de Ferro Sorocabana como marco divisor. Segundo Nunes et al. (2006), a Leste ocorre o predomínio de colinas menores com topos convexos, cujas declividades variam entre 12% a acima de 20%. Já no setor Oeste, as colinas são maiores com topos amplos e declividades até 12%. Tal diferenciação ocorre em virtude da maior concentração do agente cimentante carbonato de cálcio, tornando as rochas sedimentares da Formação Adamantina mais resistentes aos processos erosivos.

Importante destacar que, este fato possibilitou uma expansão maior da malha urbana para o setor Oeste da cidade de Presidente Prudente,SP.

De modo geral, tem-se como principais formas de relevo mapeadas no município de Presidente Prudente,SP, as seguintes morfologias:

FORMAS DEGRADACIONAIS

Topo de colinas: compreende as parte mais elevada de uma colina ou de uma elevação. Usa-se algumas vezes como sinônimo de cume. É um termo descritivo sendo comum dizer-se no topo da colina, do morro, etc. (Figura 13).

Figura 13 - Topo de colina localizada no setor norte do município de Presidente Prudente,SP

Colinas: pequenas elevações do terreno com diferentes tamanhos e níveis de declividade, podendo ter topos tabulares ou convexos (Figuras 14 e 15).

Figura 14 – Colina maiores com topos tabulares próximo a Rodovia Julio Budisk, Presidente Prudente,SP

Figura 15 - Colinas menores com topos convexos situada na divisa entre os municípios de Presidente Prudente e Álvares Machado,SP

Colos Topográficos: Pequenas depressões que interligam os topos das colinas (Figura 16)

Figura 16 - Colos Topográficos entre colinas no setor sul do municípios de Presidente Prudente,SP

Cabeceiras de drenagem em anfiteatro: Áreas com morfologia em anfiteatros onde estão localizadas as nascentes que dão origem aos cursos dágua. São áreas concentradoras de fluxos de escoamento superficial (Figura 17)

Figura 17 - Cabeceiras de drenagem em anfiteatro no setor sul do municípios de Presidente Prudente,SP

Vertentes: Superfícies dos terrenos com planos de declives variados, apresentando morfologias côncavas, convexas, retilíneas ou mistas (Figura 18, 19 e 20).

Figura 18 – Vertente côncava próximo ao Distrito de Floresta do Sul, Presidente Prudente,SP.

Figura 19 – Vertente convexa localizada no setor sul do municípios de Presidente Prudente,SP.

Figura 20 – Vertente retilínea localizada próximo ao Distrito de Montalvão, Presidente Prudente,SP

Patamares: Superfície planas que interrompem a continuidade do declive de uma vertente (Figura 21)

Figura 21 – Patamares localizados próximo ao Distrito de Montalvão, Presidente Prudente,SP

2. FORMAS AGRADACIONAIS

Terraços fluviais: Superfície horizontal ou levemente inclinada, constituída por depósitos sedimentares, consideradas como antiga planície aluvial (Figura 22)

Planícies Aluviais: Superfície do terreno mais ou menos plana onde os processos de agradação superam os de degradação. A planície aluvial tem conexão direta com o rio ou córrego.

Figura 22 - Terraços fluviais e planícies aluviais do Ribeirão Mandaguari, Presidente Prudente, SP.

  Referências Bibliográficas

AB’SABER, A.N. Um conceito de geomorfologia à serviço das pesquisas sobre o quaternário. In: Geomorfologia, São Paulo, nº18, IG/USP, 1969.

AB’SABER A. N. Os baixos chapadões do Oeste Paulista. Geomorfologia, São Paulo, n. 17, p. 1-8, 1969.

BERTRAND, G. Paisagem e Geografia Física Global - Esboço Metodológico. In: Cadernos de ciência da Terra, São Paulo, nº13, IG/USP, 1971.

CASSETI, V. Ambiente e apropriação do relevo. Contexto. São Paulo ,1991.

CASSETI, V. Elementos de Geomorfologia. Ed. UFG. Goiânia, 1994.

FUSHIMI, M. Mapeamento Geomorfológico do município de Presidente Prudente – SP. 2010. 77 p. Monografia (Bacharel em Geografia) - Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

FUSHIMI, M. Vulnerabilidade Ambiental aos processos erosivos lineares nas áreas rurais do município de Presidente Prudente-SP. 2012. 141 p. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

GUERRA, A. T. Dicionário geológico-geomorfológico. Rio de Janeiro, IBGE, 7ª edição, 446p.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO (IPT). Mapa Geológico do Estado de São Paulo: 1:500.000. São Paulo: IPT, vol. I, 1981 (Publicação IPT 1184).

MOROZ-CACCIA GOUVEIA, I. C.; NUNES, J. O.; GOUVEIA, J. M. C.; FUSHIMI, M. Mapa geomorfológico semidetalhado do município de Presidente Prudente – SP. In: Anais do XI Sinageo, Maringá, 2016.

NUNES, J. O. R.; FREIRE, R.; PERES, I. U. Mapa geomorfológico do perímetro urbano de Presidente Prudente-SP. In: VI Simpósio Nacional de Geomorfologia e Regional Conference on Geomorphology, 2006, Goiânia. Anais... Goiânia: União da Geomorfologia Brasileira; International Association of Geomorphologists, 2006.

NUNES, J. O. R.; FUSHIMI, M.; Mapeamento geomorfológico do município de Presidente Prudente-SP. In: VIII Simpósio Nacional de Geomorfologia, III Encontro Latino Americano de Geomorfologia, I Encontro Ibero-Americano de Geomorfologia e I Encontro Ibero-Americano do Quaternário, 2010, Recife. Anais... Recife: UFPE, 2010.

NUNES, J. O. R. Uma contribuição metodológica ao estudo da dinâmica da paisagem aplicada a escolha de áreas para construção de aterro sanitário em Presidente Prudente-SP. 2002. 209 p. Tese (Doutorado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

PEDRO, L. C. Ambiente e Apropriação dos Compartimentos Geomorfológicos do Conjunto Habitacional Jardim Humberto Salvador e do Condomínio Fechado Damha-Presidente Prudente-SP. 2008. 147 p. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

ROSS, J. L. S. O registro cartográfico dos fatos geomórficos e a questão da taxonomia do relevo. Rev. do Departamento de Geografia – FFLCH-USP, São Paulo, v. 6, p. 17-29, 1992.

ROSS, J. L. S.; MOROZ, I. C. Mapa geomorfológico do Estado de São Paulo. Rev. do Departamento de Geografia, São Paulo, n. 10, p. 41-58, 1997.

ROSS, J. L. S. O relevo brasileiro no contexto da América do Sul. Revista Brasileira de Geografia, [S.l.], v. 61, n. 1, p. 21-58, jul. 2016. ISSN 2526-0375.

SUDO, H. Bacia do alto Santo Anastácio – estudo geomorfológico. São Paulo, 1980. 235p. Tese (Doutorado em Geografia Física com ênfase em Geomorfologia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.

GLOSSÁRIO

GEOMORFOLOGIA: ciência que estuda as formas de relevo, tendo em vista a origem, estrutura, natureza das rochas, o clima da região e as diferentes forças endógenas e exógenas que, de modo geral, entram como fatores construtores e destruidores do relevo terrestre.

MORFOLOGIA: o mesmo que Geomorfologia.

MORFOESTRUTURAS: são grandes estruturas geológica da superfície terrestre vinculadas aos embasamentos e domínios geológicos, seja sedimentares, cristalinos e metamórficos, tais como: plataformas continentais, cratons, cadeias orogenéticas, bacias sedimentares, etc.

MORFOESCULTURAS: são as grande formas de relevo resultantes da atuação dos processos exógenos, que esculpem as grandes morfoestruturas, tais como> montanhas, serras, planaltos, depressões e planícies.

PROCESSOS ENDÓGENOS: também chamados agentes internos ou forças subterrâneas, tem origem no calor que permanece no interior do globo e nas pressões dos gases que são liberados.

PROCESSOS EXÓGENOS: aqueles que resultam de forças geológicas que agem externamente modificando as paisagens. Estes fatores geológicos são representados pela gravidade, calor solar, águas correntes, gelo, vento e seres biológicos.


Solos

Angélica Scheffer da Motta Abrantes; Carlos Eduardo Barros; Maria Cristina Perusi

SOLOS: DIÁLOGOS POSSÍVEIS E NECESSÁRIOS

O Cântico da Terra

Eu sou a terra, eu sou a vida

Do meu barro primeiro veio o homem

De mim veio a mulher e veio o amor

Veio a árvore, veio a fonte

Vem o fruto e vem a flor

Eu sou a fonte original de toda vida

Sou o chão que se prende à tua casa

Sou a telha da coberta de teu lar

A mina constante de teu poço

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranquila ao teu esforço

Sou a razão de tua vida

De mim vieste pela mão do Criador,

e a mim tu voltarás no fim da lida

Só em mim acharás descanso e Paz

(...)

Cora Coralina

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALAMOS DE SOLOS

Solos são excelentes contadores de história, vide os sítios arqueológicos, a terra preta de índio, os Antropossolos, os paleossolos, entre outros. Guardam segredos milenares e os revela com maior ou menor fidelidade de acordo com a habilidade do leitor. Para tanto, são necessários procedimentos técnicos de campo e/ou laboratório. Desta forma, é possível identificar possíveis alterações resultantes de fenômenos naturais, mas principalmente, os impactos positivos ou negativos que historicamente a ação antrópica promove no meio ambiente.

Há cerca de 10.000 anos, início do Holoceno, após a última glaciação, o homem começou a fixar-se e cultivar alimentos e matérias primas, deixando aos poucos de ser nômade para se tornar sedentário. O trabalho agrícola inovou as relações do homem com a natureza, que passou a manejar a terra para o plantio, controlar pragas, fazer a colheita e armazená-la. Porém, todo esse processo resulta na intensa mobilização do solo que, no caso do território brasileiro, é intenso mesmo!!! São diversas arações, retirada da cobertura vegetal, adubação, plantio, colheita e assim vai. Ao conjunto desses procedimentos dá-se o nome de preparo convencional, que cumpre esclarecer, é o que predomina desde os primórdios da exploração agrícola até os dias atuais.

Tudo isso faz com que esse complexo sistema sofra um processo de inversão das camadas: a “terra viva”, a mais importante para fins agrícolas, onde se encontra uma infinidade de macro e microrganismos, troca de lugar com o que podemos nos referir como “terra morta”, encontrada em profundidades superiores a 20 ou 30cm, desprovida das condições ditas adequadas para o cultivo. Desta forma, o que é bom vai pra baixo e o que não é tão produtivo vai para superfície. Por conta disso, são necessários investimentos com insumos agrícolas* para devolver a terra aquilo que o próprio manejo empregado foi responsável por destruir. Estranho, não?

Seria estranho se não estivéssemos falando do modelo de produção capitalista, que para se reproduzir, utiliza o consumo exacerbado como condição, o que beneficia as grandes corporações, como a Monsanto, a Bayer, a Syngenta, entre outras poucas. Além disso, grandes áreas mobilizadas para a monocultura, característica do agronegócio, faz com que o solo fique exposto por muito tempo do ano, o que pode resultar em perdas por erosão hídrica*, consequentemente comprometimento da fertilidade, da produção e da manutenção do homem no campo.

Pois bem, se o preparo convencional não é o mais adequado, qual seria? Ótima pergunta. Já ouviram um ditado popular que diz “quem come e guarda, come duas vezes”? Conservar, eis a solução. O manejo agroecológico, como prática conservacionista, prima pela mínima mobilização do solo, pelo equilíbrio e controle natural de insetos, mantém tanto a cobertura viva quanto morta, uso de sementes crioulas* e/ou sem modificação genética, respeita as limitações e aproveita as potencialidades dos ecossistemas. Para além disso, valoriza a cultura e as comunidades tradicionais, o camponês e a produção de alimentos saudáveis, restabelecendo a conexão harmônica entre homem e natureza. Portanto, um desafio, tendo em vista que o modelo atual é baseado na exploração do trabalho, na acumulação de bens e consequentemente na segregação socioeconômica.

Enquanto no campo os solos são explorados com essas características, nas cidades predomina a intensa impermeabilização, as edificações de alvenaria, a retirada da vegetação, canalização e retificação dos córregos, ocupação em áreas de risco à deslizamentos e enchentes. Acrescenta-se a essa lista as erosões urbanas, que comumente são entulhadas por resíduos sólidos que vão desde matéria orgânica até metal pesado, o que resulta na formação dos Antropossolos. Essa classe diferencia-se daquelas oriundas dos processos naturais, por ter sofrido interferência direta ou indireta, seja em áreas urbanas ou rurais, da ação do homem. Nossa, quanta coisa né?! Tendo em vista as múltiplas abordagens que o tema permite, propõe-se trabalhar especificamente com os solos do município de Presidente Prudente/SP, bem como apresentar as variáveis envolvidas, como os fatores de formação, uso e ocupação da terra, entre outras peculiaridades. Bora lá?

FATORES DE FORMAÇÃO DO SOLO DO MUNICÍPIO DE PRESIDENTE PRUDENTE/SP

Vamos bater um papo sobre esse assunto? Fique a vontade para perguntar. Bem, posso começar se não se incomoda. Quer conhecer o início dessa história, como os solos se formam? Esse recurso, já não tão natural, é oriundo da interação de cinco fatores:

1. MATERIAL DE ORIGEM ou rocha. Lembra-se dos grupos: magmática, sedimentar e metamórfica? Muito bem, é disso que estamos falando;

2. CLIMA, com destaque para dois elementos, temperatura e precipitação;

3. RELEVO, silhueta da superfície e, por esse motivo, condiciona os caminhos que a água da chuva irá percorrer;

4. ORGANISMOS, macro e micro fauna e flora;

5. TEMPO cronológico, muito tempo por sinal. Em média, de 100 a 300 anos para formar um centímetro de terra. Isso se a rocha for tenra, clima tropical, área de mata e relevo suavemente ondulado. No caso do granito, rocha magmática intrusiva, uma das mais resistentes, são mais ou menos 10.000 anos para formar essa mesma quantidade.

Daí a importância da conservação. Quem viver não verá a formação de poucos milímetros de solo.

youtube

Ops. Sentiram falta de algo? Pensemos juntos. Que será? Mais um tempinho pra pensar... Vejam só, esses fatores de formação estão postos na maioria da literatura sobre o assunto, porém, numa sociedade tecnificada como a nossa, urge acrescentar um sexto fator, o HOMEM ou ação antrópica (FIGURA 1). Mas como representá-lo? O homem atua de maneiras tão diversas!? Que acham do uso e ocupação da terra? Que tal?

Figura 1. “O homem”, feito com tinta de terra durante oficina do Projeto Colóide (2011)

Ahh, mas é só isso? Somam-se aos FATORES os PROCESSOS GERAIS de formação, quais sejam:

1. ADIÇÃO, corretivos agrícolas, por exemplo; 2. PERDAS desses mesmos nutrientes pela erosão; 3. TRANSPORTE de argila dos horizontes superficiais para os de subsuperfície; TRANSFORMAÇÃO das partículas individualizadas em agregados/torrões.

Os processos nos fazem entender porque não necessariamente “filho de peixe, peixinho é”, risos. Um solo “pobre” pode se tornar muito produtivo quando adicionado fertilizante, alterando assim as características químicas. Os processos são o “elemento surpresa” na formação dos solos. Portanto, é a combinação dos processos e fatores que resultam nas 13 classes: Argissolo, Cambissolo, Chernossolo, Espodossolo, Gleissolo, Latossolo, Luvissolo, Neossolo, Nitossolo, Organossolo, Planossolo, Plintossolo e Vertissolo (EMBRAPA, 2013).

Então, vamos lá! Quais fatores contribuíram para a formação dos solos que encontramos no município de Presidente Prudente?

Vou ajudar vocês, vamos começar pelo “pai de todos”, sobre o qual desencadeia os processos de formação... Lembraram? Isso, esse mesmo: o material de origem, que chamamos também de rocha ou material parental.

A rocha do referido município é sedimentar*, e recebe o nome de arenito da Formação Adamantina. Como ele foi formado? Por partículas de areia que se organizaram em camadas horizontalizadas e cruzadas, intercaladas por partículas de argila e silte, como um bolo recheado. Acho que vocês devem estar se perguntando, o que será que grudou um grãozinho no outro? Bom, vou ajudá-los mais uma vez. Foi o carbonato de cálcio e a argila, tendo sido depositados há aproximadamente 60 milhões de anos, em um ambiente de lagoas e rios.

Ops! como os arenito da Formação Adamantina tem 60 milhões de anos, quer dizer que o solo também tem essa idade, certo? Não, os solos são muito mais recentes, com idades de centenas de anos e não de milhões de anos. Ahh! Vocês sabiam que esse arenito faz parte de uma família, unida por características comuns, como ambiente de formação? Tão grande que conseguimos encontrar seus membros em boa parte do Estado de São Paulo? Então, nesse caso, o arenito da Formação Adamantina faz parte da família Grupo Bauru (FIGURA 2).

Figura 2. Afloramento do arenito da Formação Adamantina em Presidente Prudente/SP Fotos: Nunes (2016); Costa (2016)

Hmm... Agora que já conhecemos um dos fatores que é responsável por formar os solos da nossa cidade, vamos para o próximo? Quem será que participa ativamente no intemperismo* do material de origem, desagregando-o e o “dissolvendo-o”? Vou dar uma dica! Vocês já ouviram aquele ditado popular “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”? Ajudei? Ah, isso mesmo: é o clima.

Em um país tropical como o nosso, o clima é um dos fatores de formação que mais trabalha. E por que isso? É simples, temos em geral altas taxas pluviométricas e temperaturas médias elevadas, o que favorece a transformação dessa rocha em solo: quanto maior a umidade e a temperatura, maiores as reações químicas!!!

Vocês devem estar se perguntando, como será o clima atual de Presidente Prudente? O nosso município apresenta um clima tropical, com duas estações definidas: um período de verão/outono, mais quente, com temperaturas médias das máximas entre os 27°C e 29°C e muito chuvoso, entre 150 e 200mm mensais; invernos amenos, com temperaturas médias das mínimas entre os 16°C e 18°C e menos úmidos, chuvas mensais entre os 20 e 50 mm (AMORIM; MONTEIRO, 2011).

Junto com o clima, outro fator de formação são os organismos. Vamos dar destaque a vegetação, lembrando que, em grande parte, a mata nativa foi dizimada, substituída por atividades antrópicas, principalmente pela agropecuária. E alguém aí sabe o que predominava no nosso município antes dessa mudança na paisagem? Hmm, acho que eu escutei a palavra floresta! Na mosca!

Antes da ocupação do nosso território pelo homem, o que prevalecia nessa região era a Floresta Estacional Semidecidual Submontana (IBGE, 2012), também conhecida como Mata Atlântica de Interior. Essa floresta era famosa por apresentar árvores de porte em torno de 20 metros, estrato mais alto e uma razoável perda de folhas no período seco. De acordo com o referido material, essa floresta é encontrada sobre rochas areníticas, sobre Argissolos e Latossolos, ambos Amarelos e Vermelho-Amarelos, com baixa fertilidade natural e alguns Argissolos Vermelhos.

Importante destacar que a vegetação nativa tem um papel de destaque para a formação dos solos. Pensemos em uma árvore plantada na calçada? Notaram que muitas vezes a calçada é quebrada pelas raízes? O mesmo acontece com as rochas. Uma vez quebrada, desagregada, permite a entrada da água, acelerando o processo de formação do solo, juntamente com os demais fatores de formação. Além disso, a cobertura vegetal mantem o solo, funciona como guarda chuva, evitando a erosão hídrica.

Agora só falta um fator de formação. Alguém ai arrisca um palpite? Escutei relevo? Eureca! Então, como é o relevo da nossa cidade? Vamos descobrir juntos!

O município de Presidente Prudente está localizado, de acordo com Ross e Moroz (1997) na Bacia Sedimentar do Paraná, morfoestrutura, e no Planalto Ocidental Paulista, morfoescultura, especificamente no Planalto Centro Ocidental. As formas de relevo predominantes são as colinas amplas e baixas, com altitudes que variam de 300 a 600 metros, declividades entre 10 a 20%. O que isso significa? Nessas condições, a água consegue penetrar pelos poros e fissuras das rochas, sem ser expulsa pela gravidade, o que resulta na formação de solos mais maduros e evoluídos, como os Latossolos Vermelho-Amarelos e Argissolos Vermelho-Amarelos.

E o homem??? Toda ação humana altera o ambiente, podendo ser de forma positiva ou negativa, tais mudanças na paisagem podem ser identificadas através dos usos e cobertura da terra. Vamos então fazer um pequeno resgate histórico para entender como ocorreu a ocupação de nossa região?

Os primeiros moradores, que temos registros, foram os índios Coroados. Posteriormente, as terras do oeste paulista foram gradativamente ocupadas devido a expansão cafeeira, voltada principalmente para a exportação. Junto ao cultivo do café, chegaram as ferrovias, visando o escoamento da produção. Então, a vegetação original que predominava em nossa região foi substituída por atividades agrícolas: café, algodão, amendoim, pastagem e cana-de-açúcar. Ao mesmo tempo, como consequência de tais mudanças, os solos que foram formados em milhões de anos foram modificados química e fisicamente.

Agora que já sabemos como os solos são formados e modificados, vamos entrar de cabeça nos que encontramos em Presidente Prudente? Segundo Embrapa (1999) são eles: Argissolos e Latossolos. Fushimi (2012) identificou outros três, sendo eles os Neossolos Litólicos, os Gleissolos e os Planossolos (FIGURA 3).

Figura 3. Mapa do esboço simplificado das principais classes de solos do município de Presidente Prudente-SP.

Nas Figuras 4, 5, 6 e 7 observam-se os esboços dos perfís topográficos, apresentando as associações das classes de solos com o relevo, com a cobertura vegetal e com o uso da terra do município de Presidente Prudente, SP.

Figura 4. Esboço do perfil topográfico A-B.

Figura 5. Esboço do perfil topográfico C-D.

Figura 6. Esboço do perfil topográfico E-F.

Figura 7. Esboço do perfil topográfico G-H.

O que é erosão?

Pois bem, a mesma água que trabalha incessantemente para formar solo, intemperismo químico, o que predomina no clima tropical, também é a responsável pelo arraste de toneladas de sedimentos e rochas a cada episódio de chuva.

À combinação dos processos de desagregação, separação das partículas individuais do solo: areia, silte e argila e a consequente retirada desse material, dá-se o nome de erosão.

É muito comum encontrarmos na literatura a afirmação de que “perde-se solo”, na verdade, sabemos exatamente para onde “ele” vai e, nesse caso, para as áreas de embaciamento, fundos de vale, rios, córregos, oceanos. Junto com os sedimentos identificam-se agrotóxicos, metais pesados, bactérias e tudo o mais que a água é capaz de arrastar.

Aliás, é muito importante frisar que a água não é a vilã da história, na verdade, esses processos são potencializados pelo modelo de uso da terra que, invariavelmente, prima pela retirada da cobertura vegetal e da palhada das culturas preexistentes, acelerando assim os processos erosivos.

Simples assim? Não! Os processos erosivos se manifestam na paisagem de diversas formas. A mais assombrosa é a erosão laminar (Figura 8). Por que assombrosa? É sorrateira, trabalha quase silenciosa ao carregar de forma homogenia as partículas do solo. Porém, um olhar mais atento perceberá rochas aflorando onde não existiam, assim como raízes de árvores. Esses são alguns possíveis sinais que a parte superficial do solo, a mais importante para o cultivo, está sendo transportada.

Figura 8. Erosão laminar ou em lençol.

Quando o fluxo de água se concentra, é possível notar incisões, cavidades esculpidas por ela. Neste momento começa a ocorrer a erosão linear. Esses são sulcos (Figura 9), que podem evoluir para ravinas (Figura 10) e mesmo voçorocas ou boçorocas (Figura 11). Nesse estágio, a incisão intercepta o aquífero e aí é como se nascesse um “rio”, que na verdade não é propriamente um “rio”, mas isso veremos em outro momento.

Figura 9. Erosão linear do tipo sulco.

Figura 10. Erosão linear do tipo ravina.

Figura 11. Erosão linear do tipo voçoroca ou boçoroca com o afloramento do aquífero freático.

Bem, fato é que a água nunca caminha sozinha. Por esse motivo, é necessário estar atento para o modelo de uso da terra, garantindo a adoção de boas práticas agrícolas, como curvas de nível, adubação verde, manejo ecológico, entre outras.

Cabe a dica: perda de solo é perda de dinheiro, o que pode resultar na inviabilidade da atividade agrícola para o camponês, o principal responsável pela produção de quase tudo que comemos todos os dias. Já parou para pensar nisso?

Importante destacar que devido a suscetibilidade à erosão, principalmente dos Argissolos, associado ao uso e ocupação das terras em áreas rurais onde há o predomínio do preparo convencional, identificam-se muitos quadros de erosão hídrica (sulcos, ravinas e voçorocas), conforme pode ser observado no mapa de vulnerabilidade ambiental a processos erosivos lineares do município de Presidente Prudente-SP e no Quadro da síntese integrada (FIGURA 12 e 13).

Figura 12. Mapa de vulnerabilidade ambiental a processos erosivos lineares do município de Presidente Prudente-SP.

Figura 13. Síntese integrada da vulnerabilidade ambiental dos processos erosivos lineares das áreas rurais do município de Presidente Prudente-SP.

VAI MAIS UM POUQUINHO DE SOLO AÍ?

Vimos então que os solos são extremamente complexos, resultado da intemperização. Gente, que é isso? Um conjunto de processos físicos, químicos e biológicos que atuam diretamente sobre a rocha, com intensidades que variam de acordo com o clima, cujo produto final depois de algum tempo, é o solo.

Quanto a composição, para que sejam produtivos, é necessário que sejam constituídos por partículas minerais, em torno de 460g/kg; orgânicas, 40g/kg; além de uma boa disponibilidade de água e ar.

Os componentes minerais são oriundos da rocha de origem, que através do processo de intemperização das rochas, lentamente são liberados para serem utilizados pelas plantas. Graças as características do material de origem, arenito Adamantina, os solos da região de Presidente Prudente apresentam pouca reserva mineral, pelo menos aqueles mais necessários para a maioria das plantas. Isso faz com que sejam necessários investimentos com corretivos agrícolas, o que onera o custo da produção.

A matéria orgânica tem uma importância muito significativa, garantindo a manutenção da vida. Sim, os solos são vivos!!! A vida do/no solo é expressa através dos organismos que vão desde seres microscópios como bactérias e fungos, até minhocas, besouros, tatu-bolinha, centopeias e tantos outros. São eles os responsáveis pela decomposição dos resíduos vegetais e animais, possibilitando a liberação dos nutrientes necessários para o crescimento das plantas. Já seria incrível se essa fosse a única função dos organismos, mas tem mais. Existem bactérias que possibilitam a fixação do nitrogênio pelas plantas, principalmente as leguminosas; os túneis cavados pelas minhocas possibilitam maior circulação do ar e infiltração da água; as centopeias atuam no controle de outros organismos que podem ser prejudiciais para as plantas; ou ainda os piolhos-de-cobra, que ingerem terra com conteúdos orgânicos e expelem calotas fecais, provocando melhor mistura das partículas orgânicas e minerais.

Ufa, quanto trabalho!!! Apesar da inquestionável importância da matéria orgânica, os solos do município em questão, associado ao uso da terra, apresenta menos de 10g/kg, ou seja, muito aquém do desejado.

Assim sendo, tanto os componentes minerais quanto orgânicos resultam na síntese de nutrientes que estarão disponíveis para as plantas. Mas para seu bom desenvolvimento são necessários os poros para que suas raízes consigam se desenvolver livremente e para que seja possível a absorção de oxigênio. Sim, as raízes das plantas precisam tanto de água e oxigênio quanto nós.

O oxigênio e outros gases estão principalmente nos macroporos, obviamente se o solo não estiver saturado. A água fica contida nos microporos e é através deles que consegue infiltrar no sistema, recarregando os aquíferos*, cumprindo uma das etapas da sua missão, o tão conhecido “ciclo da água”. Solo e água? Sim, casamento perfeito. O solo é um grande reservatório de água.

FINALMENTE: TERRA, PRA QUE TE QUERO?

Pois bem, o solo é a base da vida em nosso planeta. Olhe ao redor e pense no quanto necessitamos dele: a maioria dos alimentos que comemos são produzidos na terra. O algodão ou bambu da roupa que você está vestindo são produzidos onde mesmo? A madeira da mesa onde você se debruça; a cama que você dorme; o papel no qual foi impresso esse livro e tudo mais que nos cerca, depende do “solo nosso de cada dia” (veja o vídeo É Melhor Salvar os Solos).

Serve qualquer um? NÃO!!! Precisamos que seja produtivo, com boa disponibilidade de nutrientes, nem muito ácido nem muito alcalino, não deve estar degradado pela erosão e as pessoas que nele trabalham devem ter seus direitos garantidos, ter salário justo e todas as informações e condições necessárias para manejá-lo adequadamente. Vejam, esse é um desejo, não é necessariamente o que vemos por aí.

Por todos esses motivos, não podemos aceitar que continuem destruindo, poluindo, degradando e erodindo um recurso tão precioso. O assunto é tão sério que 2015 foi declarado pela Organização das Nações Unidas (ONU), o Ano Internacional do Solo (FIGURA 14). E nós, qual nossa parcela de contribuição nessa história?

Figura 14. Logo do ano internacional do solo

Mais ainda bem que “ainda” não é o fim! Dispomos de conhecimento que nos possibilita recuperá-lo, se for o caso e continuar produzindo de maneira conservacionista. Para tanto, precisamos de uma forma diferente da convencional de nos relacionarmos com esse sistema: uma agricultura que integre equilibradamente objetivos sociais, econômicos e ambientais (ALTIERI, 1989), em que a razão para produzir alimentos não seja unicamente o lucro, mas sim a saúde para toda a população, todos mesmo, respeitando a natureza. Precisamos construir uma agricultura que tenha em sua base princípios ecológicos: a agroecologia.

As técnicas utilizadas pela agricultura agroecológica buscam a manutenção e conservação do solo: propondo que haja o mínimo de revolvimento possível, aração mínima ou plantio direto, para que se evite a formação de crostas e lajes superficiais que geram compactação. É importante que o solo esteja sempre protegido com uma boa camada de folhas ou palhada (o mulch), para evitar o aquecimento excessivo e diminuir o impacto das gotas da chuva, reduzindo assim a possibilidade de erosão hídrica.

Precisamos de alimentos que nos garanta segurança alimentar: se dividirmos a quantidade utilizada de agrotóxicos por ano no território nacional pelo número de habitantes, chegamos ao número surpreende de 5,2 litros por pessoa. É muita coisa! Além de causarem problemas graves de saúde, como câncer e doenças neurológicas, ainda poluem rios e lagos, os peixes com os quais nos alimentamos, por diante.

Por isso a agroecologia propõe o aumento da biodiversidade nos sistemas agrícolas, agroecossistemas, através de práticas como o consórcio de espécies, a rotação de culturas e a adubação verde, que aumentam a diversidade possibilitando relações mais complexas, onde o impacto negativo dos insetos é drasticamente diminuído. Na monocultura, onde a diversidade é mínima, inseto é considerado “praga”. Pense comigo: na floresta não existem pragas! O ataque danoso de insetos aos nossos cultivos nos indica uma situação de desequilíbrio ecológico e não devemos tratar essa situação com veneno, mas com o restabelecimento da biodiversidade.

Ao propor a retomada dos princípios ecológicos na agricultura, propõe-se também a autonomia dos agricultores, diminuindo a dependência de insumos externos como fertilizantes químicos, agrotóxicos e máquinas. Podendo gerar inclusive significativo impacto econômico possibilitando melhoria de vida. Além disso, a agroecologia valoriza a realidade local, do bioma, da paisagem regional na produção de frutas e alimentos nativos, respeitando a capacidade produtiva dos solos e a cultura local.

Agora que você já sabe mais sobre os solos da sua região, esperamos contar com seu apoio nessa luta. Compartilhe esse conhecimento com seus amigos. Como vimos, nossa saúde depende da saúde dos solos, essa é a máxima de Primavesi (2016): solo sadio → planta sadia → ser humano sadio. Precisamos assumir nossa responsabilidade no cuidado e conservação desse recurso, na busca por alimentos menos industrializados, pela prática da reciclagem e compostagem, diminuindo a quantidade de resíduos sólidos que comumente são depositados nos solos. É necessário reivindicar políticas públicas que possibilitem a construção da agroecologia e outras alternativas para a conservação do solo. Espero poder contar com sua ajuda, o solo e o futuro das próximas gerações agradece!

SOLOMAP

Depois de todas as informações sobre os processos formadores dos solos, acesse o SOLOMAP para conhecer melhor as características físicas dos solos do município de Presidente Prudente, SP, Brasil. Também, para complemento das informações, podem acessar os sites dos Laboratórios de Solos da FCT/UNESP PROJETO TRILHANDO PELOS SOLOS e da UNESP, Campus de Ourinhos PROJETO COLÓIDE.

  Referências Bibliográficas

ALTIERI, M. A. Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa. Rio de Janeiro: PTA/Fase, 1989.

AMORIM, M. C. C. T.; MONTEIRO, A. As temperaturas intraurbanas: exemplos do Brasil e de Portugal. In: Confins [Online], 13, 2011. Disponível em: http://confins.revues.org/7284. Acesso em nov. 2016. IBGE. Manual técnico da vegetação brasileira. Rio de Janeiro: IBGE, 2012.

EMBRAPA. Sistema Brasileiro de Classificação de Solos. Brasília, DF: Serviço de Produção de Informação (SPI), 2013.

FUSHIMI, M. Vulnerabilidade Ambiental aos processos erosivos lineares nas áreas rurais do município de Presidente Prudente-SP. Dissertação de mestrado em Geografia, 141 f. Presidente Prudente: FCT/UNESP, 2012.

NUNES, J. O. R.; FREIRE, R.; PERES, I. U. Mapa geomorfológico do perímetro urbano de Presidente Prudente-SP. In: VI Simpósio Nacional de Geomorfologia e Regional Conference on Geomorphology, 2006, Goiânia. Anais... Goiânia: União da Geomorfologia Brasileira; International Association of Geomorphologists, 2006.

PRIMAVESI, A. Manual do solo vivo: solo sadio, planta sadia, ser humano sadio. 2 ed. rev. São Paulo: Expressão Popular, 2016. 205 p.

ROSS, J. L. S.; MOROZ, I. C. Mapa geomorfológico do Estado de São Paulo. Rev. do Departamento de Geografia, São Paulo, n. 10, 1997.

GLOSSÁRIO

AGRONEGÓCIO: toda relação comercial e industrial envolvendo produtos agropecuários. De maneira geral, abarcam grandes propriedades rurais, monocultura e uso exacerbado de tecnologias visando o aumento da produtividade, cuja produção é voltada ao mercado externo – produção de commodities. Importante ressaltar, que essa prática está na contramão do preparo conservacionista do solo e da agroecologia.

ANTROPOSSOLOS: volume formado por várias ou apenas uma camada antrópica (materiais de natureza mineral ou orgânica produzidos pela atividade humana), desde que possua 40 cm de espessura, constituído por material orgânico e/ou inorgânico, em diferentes proporções, formado exclusivamente por intervenção humana.

ARAÇÃO: processo de revolver o solo com um arado (equipamento mecânico tracionado). Foi inventado com a finalidade de descompactar o solo, principalmente, para remover as camadas/horizontes congelados.

EROSÃO HÍDRICA: sabe quando cortamos o braço, e ficamos com uma ferida. Dói não é? A erosão é como essa ferida, não temos que cuidar dela para que não nos contaminemos? Pois então, o mesmo ocorre com uma erosão. Portanto, erosão é a perda progressiva de solo, a partir do desequilíbrio do sistema água-solo-cobertura vegetal. Em países tropicais como o nosso, devido ao grande volume de chuvas, aliado as práticas convencionais do solo, faz da erosão hídrica um dos principais problemas ambientais. Porque além da perda de solo no foco erosivo, há o assoreamento de cursos d’água, e possivelmente, a contaminação deste recurso natural pela deposição dos sedimentos. Então, perdemos área de cultivo, assoriamos e contaminamos os cursos d’água e consequentemente, teremos menor quantidade e qualidade de água disponível para os seus diversos usos? E mesmo com todos esses problemões que ela causa, ainda é um dos principais problemas ambientais no nosso país? Infelizmente, sim!!!

GRANDES CORPORAÇÕES: geralmente, são empresas de todos os ramos (alimentício, industriais, farmacêuticos...) que passaram os limites territoriais de seus países de origem e possuem, portanto, filiais em vários locais do mundo. E qual o problema delas se instalarem em outros países? Além de explorarem a mão-de-obra e os recursos naturais, os lucros atingidos por ela, não são investidos no país que estão instaladas, eles retornam para o seu país sede. E sabem o que é mais engraçado, essas grandes corporações que são formadas por várias empresas que acabam atuando em ramos que parecem diferentes, mas na verdade estão interligados, como é o caso da Monsanto (líder mundial de produção de herbicidas e de sementes geneticamente modificadas) que se “uniu” a Bayer (empresa farmacêutica e química). E qual é a graça disso? Eles criam as doenças e ao mesmo tempo as curas. Ih... tem uma série de outros exemplos...

HOLOCENO: época geológica mais recente que faz parte do Período Neogeno e se estende de 11.500 anos até hoje. O Holoceno e Pleistoceno compõe o período do Quaternário, tido atualmente como unidade informal de tempo geológico (CPRM, 2016).

INSUMOS AGRÍCOLAS: compreendem em todos os produtos entendidos como necessários à maioria dos agrônomos para a produção vegetal e animal, tais como: adubos, vacinas, tratores, sementes, agrotóxicos, fertilizantes, equipamentos para irrigação, armadilha para insetos, entre outros.

PALEOSSOLOS: solos formados em condições atuantes no passado, preservado da erosão em superfícies antigas estáveis, posteriormente, coberto por sedimentação mais recente, sendo assim, fossilizados no interior de sequências sedimentares.

ROCHAS SEDIMENTARES: rocha constituída pela acumulação de sedimentos que sofre diagênese (processo de transformação dos sedimentos em rocha sedimentar).

SEMENTE CRIOLA: adaptada ao ambiente local; culturalmente e historicamente utilizada. Muitos resistente.

TERRA PRETA DE ÍNDIO: ou terra arqueológica, de cor escura, resultado da decomposição da matéria orgânica, guarda artefatos utilizados pelo homem primitivo.


Clima

José Tadeu Garcia Tommaselli; Lindberg Nascimento Júnior; Paulo Cesar Zangalli Júnior: João Lima Sant' Anna Neto

O TEMPO E O CLIMA EM PRESIDENTE PRUDENTE

Todos os dias sentimos, percebemos e observamos uma diversidade de cheiros, contrastes, texturas que nos ajudam a definir o que é normal, conhecido, seguro, etc, e junto com estes o que é escuro e iluminado, o limpo e sujo, seco e molhado, frio e quente, o que está longe ou perto, o que é agradável, confortável, e o que irrita ou gera desconforto. Você deve ter percebido que essas condições também geram algum tipo de sentimento em você ou em seus parentes e amigos. Por exemplo, entre a hora que você acorda, se arruma e vai para escola, para o trabalho, e volta para casa, elas podem aparecer e desaparecer, dependendo do lugar onde você está e do tempo que você permanece.

São essas condições que formam o nosso cotidiano e nos ajudam a definir e organizar diversas atividades individuais – aquelas que fazemos todos os dias para nós mesmo, como a hora de voltar para casa, que roupa vestir, o que comer, por exemplo. E, também, a forma como nos relacionamos coletivamente, respeitando o horário da aula e do recreio, o tempo de fala de um colega e do professor, as brincadeiras com os amigos, etc.

Nesse conjunto de condições, a observação da Atmosfera (camada de gases que envolve a terra) historicamente tem nos ajudado e nos auxiliado a definir que roupa vestir, quando plantar, que horas ir dormir, como sair de casa, etc, por que conseguimos distinguir quando sentimos frio, calor, frescor, quando o dia está ensolarada, seco, chuvoso ou nublado. E nós distinguimos essas condições observando a atmosfera diariamente ou em sucessão habitual.

No primeiro caso, definimos o Tempo Atmosférico como o estado da atmosfera no momento em um determinado lugar. Você pode fazer esse exercício olhando para céu agora mesmo e verificando se está chuvoso, ensolarado, nublado, ventando, etc. Dependendo destas condições definimos o Tipo de Tempo. O tipo de tempo é relativo às condições atmosféricas que pode variar de um minuto até um dia (24 horas).

No segundo caso, podemos observar as condições da atmosfera em sua sucessão habitual definindo o que é o Clima. Por exemplo, lembre-se qual período do ano ocorrem mais chuvas, ou de temperaturas altas ou baixas, ou das flores e frutas, etc.

O clima é mais abrangente que o tempo, pois nele é necessário incluir muitas observações de diversos tipos de tempo. No clima o interessante é destacar o período (ocorrência), duração (permanência), e a frequência (quantidade) dos tipos de tempo. Definir o clima a partir do período, da duração e da frequência requer a observação da atmosfera diariamente e assim agrupar os tipos de tempos mais parecidos uns com outros. Por exemplo, em que período do ano dias ensolarados ocorrem sem interrupção de chuva? Definir esse período é importante para que possamos planejar outras atividades: festas, viagens, construção de casas, cultivo de alimentos e plantas, etc.

Mas, se tempo e clima são condições atmosféricas e ocorrem em um determinado lugar, quais são as condições atmosféricas em Presidente Prudente? Quais são os tipos de tempo e clima mais atuante em nosso município? Vejamos.

A radiação e a distribuição global da radiação solar nos auxilia entender essa dinâmica, que em termos gerais define parte das características climáticas do município de Presidente Prudente.

Devido a sua localização, sob coordenadas geográficas 22º07’de Latitude Sul e 51º23’ de Longitude Oeste, muito próximas do Trópico de Capricórnio com 23º27´ de Latitude Sul, o movimento da radiação incide diretamente ao meio-dia duas vezes ao ano. Esse movimento distingue o que chamamos de solstícios de verão e de inverno, que correm em 22 de junho e 22 de dezembro.

Outro fator é que Presidente Prudente apresenta altitudes entre 435 metros de altitude acima do mar, e está situado a 600 km de distância do Oceano Atlântico. Esta situação faz-que o clima do município seja muito influenciado pela continentalidade. E o que isso quer dizer?

A continentalidade em Presidente Prudente implica em considerar que devido a distância do litoral, é habitual observar tipos de tempo com grandes amplitudes térmicas (diferença entre a temperatura máxima e mínima registrada), tanto entre no dia, quanto entre o dia e a noite.

De acordo com a classificação climática oficial do IBGE, Presidente Prudente localiza-se na área de influência do clima tropical sub-quente e úmido, com 1 ou 2 meses secos, como pode ser observado na Figura 1.

Figura 1 - Clima do estado de São Paulo, com destaque para Presidente Prudente – SP.

A localização do município também favorece a entrada de massas de ar de diferentes gêneses. Massas de ar se referem a um volume extenso de ar com características de temperatura e umidade homogênea, e em nossa região atuam sistemas tropicais originários do continente e do Oceano Atlântico; sistemas equatoriais caracterizados por ventos da região da Amazônia; sistemas polares que com origem nas proximidades da Antártida e do Sul da Argentina; sistemas frontais, caracterizados pelo encontro de massas de ar com características diferentes; e sistemas especiais, cuja a participação se dá por movimentos convectivos e influência do fenômenos globais (Animação abaixo).

youtube ("Fonte: BOIN, 2000")

Durante a maior parte do ano, Presidente Prudente está sob a ação da massa Tropical Atlântica (Anticiclone semifixo do Atlântico Sul), que tem características de se uma massa de ar quente, estável e pouco úmida. Essas condições determinam a característica de temperaturas elevadas na maioria dos dias do ano. O sistema tropical continental tem origem na depressão do Chaco, no centro da América do Sul, e apresenta ventos quentes e secos, configurando um aquecimento bastante acentuado, resultando em dias quentes e abafados, mais recorrente na primavera e verão. Outro sistema com características semelhantes, porém menos acentuado é o sistema equatorial, que no verão configura-se por ventos úmidos da Amazônia, com orientação noroeste para sudestes, sendo atraídos pela convergência do Atlântico Sul. Na trajetória do movimento atinge nossa região provocando tipos de tempo quentes e úmidos.

Os sistemas polares atingem nossa região trazendo baixas temperaturas e provocando importantes momentos de amplitude térmica. São sistemas estáveis, por isso tendem a provocar tipos de tempos firmes, com pouca umidade, dias frios, ausência de chuva e céu claro, principalmente no outono e inverno. O encontro de sistemas polares (frio e seco) e tropicais (quente e úmido ou seco) resultam nos sistemas frontais que geram muita instabilidade devido a descontinuidade das massas de ar com características diferentes. A penetração da frente polar provoca elevada nebulosidade, ocorrência de precipitação (chuva) e diminuição da temperatura. Em nossa região, cerca de 70% das chuvas estão associadas às frentes polares (Figura 2).

Figura 2 - Como se forma uma frente fria?

É também bastante comum um aumento gradativo da temperatura após alguns dias de domínio do ar polar enfraquecido, e quando isso ocorrer denomina-se massa de ar Polar Tropicalizada. Ela tende a se formar entre dois sistemas instáveis, ou seja, entre uma frente polar que se dissipa no Norte, e uma outra nova que vem do sul.

Além destes sistemas, as Linhas de Instabilidade e a Zona de Convergência do Atlântico Sul também alteram as condições de tempo em Presidente Prudente. As linhas de instabilidade são provenientes do movimento convectivo bastante intenso associado aos ventos que se deslocam do litoral para o continente, pode favorecer precipitação muito rápidas e intensas, sendo bastante comuns no verão.

Já a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) trata-se uma banda de nebulosidade caracterizada por processos convectivos de orientação noroeste e sudeste, e é responsável por longos períodos de chuva em nossa região. Quando associados a uma entrada de frente polar ocasiona episódios intensos de chuvas por vários dias consecutivos, sendo recorrentes no verão (Figura 3).

Figura 3 - Formação das ZCAS sobre o continente Americano.

Junto com a radiação, o relevo, a continentalidade e os sistemas atmosféricos, existe também outros dois fatores que auxiliam a entender o clima em Presidente Prudente. Esses dois fatores tratam-se da importante expansão territorial urbana e o desmatamento que acontece tanto no município e no entorno da cidade. Esses fatores tendem a provocar um aquecimento importante, que pode ser observado a partir da ocorrência de ilhas de calor urbana, e também no aumento paulatino de dias quentes com temperatura acima de 30ºC, e a diminuição de dias frios (inferior a 20°C).

Sob estas características, a temperatura média anual de Presidente Prudente é de 23,4ºC, atingindo a média de 26ºC nos meses de verão (Dezembro, Janeiro e Fevereiro), e 20ºC nos meses de inverno (Junho, Julho e Agosto). Mas pode-se observar nos últimos 50 anos, extremos de temperatura máxima de 39,3°C (no dia 17 de novembro de 1985) e mínima de -1,8°C (no dia 18 de julho de 1975). O gráfico da Figura 4 mostra bem essa variabilidade da temperatura.

Figura 4 - Variabilidade da Temperatura Média em Presidente Prudente, SP, Brasil (1).

(1) O gráfico de variabilidade das temperaturas é um gráfico de superfície. Nesse gráfico representamos uma série temporal anual (eixo da abscissa) e outra mensal (eixo da ordenada). No gráfico de Presidente Prudente é possível verificar que o inverno (temperaturas mais baixas) se dá nos meses de maio a junho nos últimos (2009 a 2015), mas nem sempre foi assim. Durante os anos de 1969 a 1990 as menores temperaturas podiam ser verificadas durante os meses de abril a agosto. Isso implica na diminuição dos dias frios e aumento dos dias quentes. Dessa forma podemos tirar várias informações com esse gráfico. Aproveite e explore!

Já a precipitação se apresenta em torno de 1300 mm por ano, sendo fortemente distribuída sazonalmente, alternando períodos chuvosos e secos (menos chuvosos), que mostra que durante os meses de outubro a março concentre grande parte dos valores pluviométrico do ano inteiro, enquanto de abril e setembro, se apresenta com o período com redução expressiva da precipitação. Esse regime é o que chamamos de tropical continental com seis meses mais chuvosos que concentra cerca de 70% das chuvas, sendo janeiro o mês mais chuvoso, com média de aproximadamente 200 mm anuais. E os outros seis meses secos ou menos chuvosos concentrando 30% do totais anuais médios, sendo o mais seco o mês de julho, cuja média não passa de 50 mm anuais. A precipitação em Presidente Prudente também apresenta uma variabilidade entre os anos - chamada de variabilidade interanual). Neste caso, nos últimos 50 anos tem sido observado em nossa região as precipitações podem ocorrer entre 50% a mais ou a menos de um ano para o outro. Por exemplo, o ano mais chuvoso já registrado em Presidente Prudente foi 1989, quando ultrapassou 1800mm. O ano mais seco foi 1985, com o total anual de 840mm, conforme se verifica no gráfico de chuva. Este ano afetou significativamente o abastecimento de água na cidade, conforme pode ser constatar no gráfico da Figura 5.

Figura 5 - As Chuvas em Presidente Prudente, SP, Brasil.

Essa variação entre os anos é fortemente influenciada por fenômenos globais, destacadamente o El Niño Oscilação Sul - ENOS, que é um fenômeno oceânico-atmosférico que se origina pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, que pelos processos de evaporação e convecção acaba por incluir calor e umidade ora mais ora menos na atmosfera, alterando as condições de circulação atmosférica e provocando impactos nas precipitações e na temperatura em todo o globo. Diante disso as estações do ano em presidente prudente se configuram da seguinte maneira:

  • Na primavera que se inicia por volta do dia 22 de setembro traz com ela mudanças no regime de chuvas e temperaturas. As chuvas passam a ser mais intensas e frequentes, marcando o período de transição entre a estação seca e a estação chuvosa. Em Presidente Prudente chove, nos três meses dessa estação, uma média de 335 mm distribuídos por cerca de 29 dias;

  • Durante a primavera, iniciam-se as pancadas de chuva no final da tarde ou noite, devido ao aumento do calor e da umidade que se intensificam gradativamente no decorrer desta estação. A temperatura média dos três meses dessa estação é de 23,8 °C.

Nesta época, em Presidente Prudente, são comuns temperaturas máximas acima de 37 °C, por volta das 15-16 horas. Contudo, neste período, ainda podem ocorrer incursões de massas de ar frio e que podem causar declínio da temperatura. O Quadro 1 mostra os valores históricos de chuva e temperatura da primavera prudentina, registrados na estação meteorológica entre os anos de 1943 a 2015.

Quadro 1 - Valores históricos de chuva e temperatura da primavera de Presidente Prudente - SP, no intervalo temporal 1943-2015.

O verão Prudentino é a estação com os maiores totais acumulados de chuva. Nos três meses do verão, chove, em média, 564 mm distribuídos por cerca de 44 dias. As temperaturas são as mais elevadas de todo o ano com média de 25,4 °C nesses três meses. São comuns temperaturas máximas acima de 37 °C. O Quadro 2 mostra os valores históricos de chuva e temperatura do verão Prudentino, registrados na estação meteorológica entre os anos de 1943 a 2015.

Quadro 2 - Valores históricos de chuva e temperatura do verão de Presidente Prudente - SP, no intervalo temporal 1943-2015.

Por ser uma estação de transição entre o verão e inverno, no outono acontecem características de ambas tais como, mudanças rápidas nas condições de tempo, maior frequência de nevoeiros e, eventualmente registros de geadas. Há redução das chuvas. Em Presidente Prudente, nos três meses do outono totalizam, em média, 272 mm, distribuídos ao longo de cerca de 25 dias.

As temperaturas tornam-se mais amenas devido à entrada de massas de ar frio mais intensas, com médias de temperaturas mínimas que variam entre 13,7 °C a 19,2 °C, e em alguns casos chegando a valores inferiores a 10 °C. O quadro 3 mostra os valores históricos de chuva e temperatura do outono Prudentino, registrados na estação meteorológica entre os anos de 1943 a 2015 (Quadro 3).

Quadro 3 - Valores históricos de chuva e temperatura do outono de Presidente Prudente - SP, no intervalo temporal 1943-2015.

Já no inverno as chuvas sessam em Presidente Prudente. Nos três meses do inverno, chove, em média, 133 mm, distribuídos em cerca de 14 dias. Observa-se também queda de temperatura e, ocasionalmente, geadas. Em Presidente Prudente, a temperatura média nos três meses de inverno é de 20,2 °C. A média das temperaturas máximas fica em torno dos 35 °C. Historicamente, os meses de julho e agosto costumam apresentar as menores temperaturas mínimas.

Durante o inverno são comuns as inversões térmicas que causam nevoeiros e neblinas, geralmente durante o período da manhã. Pode haver redução da visibilidade. Com baixos totais de precipitação, durante esta época predomina o ar seco e o vento calmo que favorecem a formação da bruma - substâncias sólidas suspensas na atmosfera, tais como poeira e fumaça - poluindo o ar. O Quadro 4 mostra os valores históricos de chuva e temperatura do inverno prudentino, registrados na estação meteorológica entre os anos de 1943 a 2015.

Quadro 4 - Valores históricos de chuva e temperatura do inverno de Presidente Prudente - SP, no intervalo temporal 1943-2015.

Em síntese, pode-se dizer que, em Presidente Prudente predomina um regime típico de clima tropical continental com características de transição. O Climograma da Figura 6 ajuda a entender essa característica. Isso porque observasse a distinção entre um período quente e chuvoso, recorrente entre outubro e março e com a atuação de sistemas atmosféricos tropicais, e outro período que sob atuação de sistemas extratropicais nos meses entre abril e setembro, provocam temperaturas mais amenas e menos chuva.

Figura 6 - Climograma de Presidente Prudente, SP, Brasil.

Após conhecer os conteúdos sobre o clima e o tempo da região do município de Presidente Prudente, SP, Brasil, conheça melhor a nossa ESTAÇÃO METEOROLÓGICA DE PRESIDENTE PRUDENTE-SP.

  Referências Bibliográficas

AMORIM, Margarete C. C. Trindade. O clima urbano de Presidente Prudente / SP. Tese (doutorado) - Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, São Paulo: [s.n.], 2000.

BARROS, Juliana Ramalho; ZAVATTINI, João Afonso. Bases conceituais em climatologia geográfica. Mercator - Revista de Geografia da UFC, ano 08, n.16, 2009.

BARRY, Roger G.; CHORLEY, Richard J. Atmosfera, tempo e clima. 9ª ed. Porto Alegre: Bookman, 2013.

BOIN, M. N. Chuvas e erosões no oeste paulista: uma análise climatológica aplicada. Tese de Doutorado – UNESP – IGCE, Rio claro, 2000.

IBGE. Diretoria de Geociências. Mapa de Clima do Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. 1 mapa, color, Escala 1:5.000.000.

PEGORIM, Josélia. ZCAS se forma sobre o Brasil. Clima Tempo. Disponível em: https://www.climatempo.com.br/noticia/2016/01/15/zcas-se-forma-sobre-o-brasil-4321.

SANT’ANNA NETO, João Lima; TOMMASELLI, José Tadeu G. O tempo e o clima de Presidente Prudente. Presidente Prudente: UNESP/FCT, 2009. LEHNS, Ryan. Chasing 101: Section 1:9 Forecasting: Cold Fronts. Iowa Storms: Weather spotter and Chasers. Disponível em: http://www.iowastorms.com/weather/.

GLOSSÁRIO

CLIMA: série dos estados atmosféricos acima de um lugar em sua sucessão habitual (SORRE, 1951). O clima é um conjunto de tendências - mais ou menos estáveis - que resulta em condições relativamente permanentes, durante um período de tempo mais extenso, mais longo ou mais duradouro (BARROS, ZAVATTINI, 2009).

ELEMENTOS DO CLIMA: são definidos por atributos físicos que representam as propriedades da atmosfera de um local, como a temperatura, a precipitação, umidade, pressão, vento e nebulosidade.

FATORES DO CLIMA: são também conhecidos como “controladores climáticos”, pois resultam em variações espaciais dos elementos do clima. Os fatores geográficos do clima são: latitude, relevo, altitude, vegetação, continentalidade e maritimidade, correntes oceânicas, tipos de solos e atividades humanas.

INVERSÃO TÉRMICA: naturalmente a medida que aumentamos a altitude temos uma diminuição na temperatura. A inversão térmica é um fenômeno natural que altera essa dinâmica, fazendo com que o ar frio fique mais próximo da superfície, o que dificulta a mistura do ar. Trata-se de um fenômeno extremamente prejudicial se ocorrer em áreas urbanas-industriais, porque tendem dificultar a dispersão dos poluentes.

MASSAS DE AR: unidade aerológica, ou seja, uma porção da atmosfera, de extensão considerável, com características térmicas e higrométricas homogêneas (MENDONÇA; DANNI-OLIVEIRA, 2007, p.99). Ou ainda pode ser definida como um grande corpo de ar, cujas propriedades físicas (temperatura, umidade etc.) são mais ou menos uniformes horizontalmente por centenas de quilômetros (BARRY, CHOLEY, 2013).

MASSA DE AR EQUATORIAL CONTINENTAL: massa de ar cujas características principais são altas temperaturas, proximidade da linha do equador e umidade. Apesar de ser uma massa continental é úmida, pois se forma sobre uma densa floresta e uma vasta rede de drenagem, além de ter sua umidade acrescida pelos ventos oceânicos de leste.

MASSA DE AR TROPICAL ATLÂNTICA: umas das principais massas de ar da dinâmica atmosférica da américa do sul. Por ser formado sobre o oceano atlântico possui elevadas temperaturas e umidade.

SISTEMAS FRONTAIS: o encontro de duas massas de ar com características diferentes produz uma zona ou superfície de descontinuidade térmica, barométrico, anemométrica, higrométrica etc. Essa descontinuidade é o que convencionalmente se chama de frente.

TEMPO: é o conjunto de valores que, em um momento dado, e em lugar determinado, caracterizam o estado atmosférico (BALDIT). O tempo é uma combinação passageira, efêmera, de curta duração (BARROS, ZAVATTINI, 2009)

ZONA DE CONVERGÊNCIA DO ATLÂNTICO SUL (ZCAS): facilmente identificado como uma banda de nebulosidade que se estende no sentido Noroeste/Sudeste. As ZCAS resultam do encontro de massas de ar quentes e úmidas da Amazônia e do Atlântico Sul.


Hidrografia

Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia; Nayara Rodrigues da Silva; Paulo César Rocha

HIDROGRAFIA DE PRESIDENTE PRUDENTE

Bacias Hidrográficas são unidades naturais cujo elemento integrador está representado pela rede de drenagem. A rede de drenagem ou rede hidrográfica são canais fluviais conectados entre si e que drenam a água da chuva. Os canais fluviais ou canais de drenagem são: rios, ribeirões e córregos.

Assim, podemos definir uma bacia hidrográfica como sendo uma região da superfície da Terra que possui vários cursos ou canais fluviais, sendo um principal e outros menores que se ligam a ele, e são, por isso, chamados de afluentes.

Elementos da bacia hidrográfica

1)Nascente ou cabeceira: local onde um rio nasce. A água pode ser proveniente de afloramento (mina, olho d’água, nascente), geleira ou lago;

2) Afluente: é o rio que corre para um outro rio principal;

3) Rio principal: canal fluvial que recebe as águas dos afluentes;

4) Fundo de vale: áreas baixas e planas, próximas aos cursos fluviais, sujeitas a inundações periódicas;

5) Foz: trecho final do rio, onde ele desemboca em outro rio ainda maior ou diretamente no oceano;

6) Divisor de águas: porção (linha) mais elevada do relevo que separa os canais fluviais e as bacias hidrográficas, pois marcam a mudança no sentido do escoamento superficial das águas das chuvas;

7) Interflúvio: conjunto formado pelo divisor de águas e vertentes que separam dois cursos fluviais;

8) Vertentes: superfícies inclinadas que formam a conexão dinâmica entre a linha divisora de águas e o canal fluvial;

9) Lençol freático: formado pelas águas que ao invés de escoarem diretamente para os canais fluviais (escoamento superficial), infiltram-se no solo e abastecem lentamente os canais.

O Brasil, em virtude de sua grande extensão territorial, apresenta 12 grandes bacias hidrográficas ou Regiões Hidrográficas (Figura 1), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), que são os órgãos nacionais responsáveis pelo planejamento ambiental e o uso racional da água. Essas bacias de drenagem são delimitadas pela topografia do terreno.

Figura 1 - Regiões hidrográficas do Brasil

O município de Presidente Prudente pertence à Região Hidrográfica da Bacia Hidrográfica do Rio Paraná.

Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a Região Hidrográfica do Paraná, com 32,1% da população nacional, apresenta o maior desenvolvimento econômico do País. Com uma área de 879.873Km², a região abrange os estados de São Paulo (25% da região), Paraná (21%), Mato Grosso do Sul (20%), Minas Gerais (18%), Goiás (14%), Santa Catarina (1,5%) e o Distrito Federal (0,5%).

Esta região hidrográfica possui a maior demanda por recursos hídricos do País, equivalente a 736m³/s, que corresponde a 31% da demanda nacional. A irrigação é a maior usuária de recursos hídricos (42% da demanda total), seguida do abastecimento industrial (27%).

O Rio Paraná (que significa "como o mar" ou "parecido com o mar", em Tupi) é o principal formador da Bacia do Prata. Quando considerado em sua extensão total até a foz do Rio da Prata, na cidade de Buenos Aires, é o oitavo maior rio do mundo em extensão (4.880 km) e o maior da América do Sul depois do Amazonas. É, ainda, o décimo maior do mundo em vazão, drenando boa parte do centro-sul da América do sul, incluindo parte de cinco estados do Brasil. Sua bacia hidrográfica abrange mais de 10% de todo o território brasileiro. Dois rios principais – Grande e Paranaíba, que drenam parte das águas dos estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo – são os formadores do rio Paraná a partir de sua confluência. Ele tem os rios Tietê, Paranapanema e Iguaçu como seus principais afluentes, todos na margem esquerda. O rio Paraná, em sua parte alta, separa os estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Até sua incursão em território argentino, quatro usinas hidrelétricas - Jupiá, Ilha Solteira, Porto Primavera e Itaipu - barram seu curso. Em seu percurso, logo após a confluência com o rio Paranapanema, o Paraná passa a banhar também o estado de mesmo nome. Mais a jusante, exatamente onde foi formado o reservatório de Itaipu, passa a demarcar a fronteira entre Brasil e Paraguai, numa extensão de 190 km até a foz do rio Iguaçu. Neste trecho, vale destacar uma sub-bacia de grande interesse para Itaipu, que drena parte da rede hidrográfica do território paranaense diretamente ao seu reservatório: a Bacia do Paraná III. Possui 8.000 km2 e envolve, total ou parcialmente, 28 municípios do estado do Paraná e um do Mato Grosso do Sul. O rio Paraná, a partir da foz do rio Iguaçu, passa a ser o limite natural entre Argentina e Paraguai. Na confluência do rio Paraguai, o rio passa a banhar exclusivamente terras argentinas, desaguando no Rio da Prata, que dá nome a esta importante bacia. Ao receber também as águas do Rio Uruguai, constitui a quarta bacia do mundo: a bacia do Prata, com 3.190.000 km2. Fonte http://www.itaipu.gov.br/energia/rio-parana

A bacia hidrográfica do Rio Paraná, por sua vez, se subdivide em várias bacias hidrográficas menores. No estado de São Paulo, as bacias hidrográficas estão divididas em Unidades de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (UGRHIs), conforme a Figura 2.

FIGURA 2 - Unidades de Gerenciamento dos Recursos Hídricos (UGRHIs) do estado de São Paulo.

Assim, na porção paulista da Região Hidrográfica do Paraná, temos 18 UGRHIs e o município de Presidente Prudente localiza-se na UGRHI do Rio do Peixe (21) e também tem parte de seu território na UGRHI do Pontal do Paranapanema (22).

No Mapa da Hidrografia de Presidente Prudente (Figura 3), é possível observar as sub-bacias pertencentes à cada UGRHI.

Figura 3 - Mapa da Hidrografia do município de Presidente Prudente, SP.

Observa-se que grande parte do território do município insere-se na UGRHI 21 – Rio do Peixe, correspondendo às sub-bacias hidrográficas 1.1 Rio do Peixe, 1.2 Córrego do Pereira e 1.3 Rio Mandaguari, sendo que esta última ainda pode ser sub-dividida, destacando-se a sub-bacia 1.3.1 Córrego da Onça.

A porção sul do município pertence à UGRHI 22 - Pontal do Paranapanema, correspondendo às sub-bacias hidrográficas 2.1 – Rio do Peixe, sub-dividida ainda em 2.1.1 Córrego do Cedro e 2.2 – Córrego do Limoeiro, com destaque para sua sub-bacia 2.2.1 Córrego do Veado.

Destaca-se que no perímetro urbano do município encontra-se o divisor de águas das duas unidades hidrográficas. Deste modo, tanto as nascentes da sub-bacia hidrográfica do Rio Mandaguari, afluente do Rio do Peixe quanto as nascentes do Rio Santo Anastácio encontram-se na área urbana.

Nos limites territoriais do município de Presidente Prudente existem 2125,21 km de canais de drenagem como rios, ribeirões e córregos. No limite do perímetro urbano da cidade, são 365,05 km de canais fluviais, conforme se observa no Gráfico da Figura 4.

Figura 4. Extensão de Drenagem do município e do perímetro urbano de Presidente Prudente. Fonte: IBGE.

Nos estudos ambientais que envolvem bacias hidrográficas, um importante parâmetro a ser considerado é a densidade de drenagem. A densidade de drenagem, expressa em Km/Km² é a relação entre o comprimento total dos canais de drenagem pela área, conforme a fórmula abaixo: Dd = Comprimento dos canais de drenagem (Km)/Área (Km²)

De acordo com FIBGE (1995), a drenagem de determinada área sofre a influência das condições climáticas, das formas de relevo, da estrutura geológica, da composição e dos aspectos físicos das rochas, dos solos, da vegetação, e da ação antrópica.

Segundo VILELLA & MATTOS (1975), o índice de densidade de drenagem varia de 0,5 Km/Km² para bacias com densidade de drenagem baixa, entre 0,5 a 1,5 Km/Km² para áreas com drenagem regular, de 1,5 a 2,5 Km/Km² para áreas de drenagem boa, de 2,5 a 3,5 Km/Km² para áreas muito bem drenadas e acima de 3,5 Km/Km² para bacias com excepcional densidade de drenagem. Conforme se observa na Tabela 1, pode-se considerar que o município de Presidente Prudente, de maneira geral, apresenta alta densidade de drenagem.

Tabela 1. Canais fluviais e densidade de drenagem.

  Referências Bibliográficas

FIBGE – Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – Introdução à Interpretação Radargeológica. Série Manuais Técnicos em Geociências. Rio de Janeiro: IBGE, 1995.

VILLELA, S. M.; MATTOS, A. Hidrologia aplicada. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1975. 245p.


Cobertura Vegetal

José Mariano Caccia Gouveia; João Baccarin Xisto Paes;

COBERTURA VEGETAL - FRAGMENTOS FLORESTAIS REMANESCENTES

Ao completar um século de existência, o município de Presidente Prudente não tem motivos para festejar seu desempenho com relação à preservação e manejo de sua cobertura vegetal original. Inserido no bioma “Mata Atlântica”, o território compreendido pelo município era originalmente recoberto por “Floresta Estacional Semidecidual”(1), com formações ciliares (Aluviais) e submontanas(2).

(1) O conceito ecológico deste tipo florestal é estabelecido em função da ocorrência de clima estacional que determina semideciduidade da folhagem da cobertura florestal. Na zona tropical, associa-se à região marcada por acentuada seca hibernal e por intensas chuvas de verão; na zona subtropical, correlaciona-se a clima sem período seco, porém com inverno bastante frio (temperaturas médias mensais inferiores a 15°C), que determina repouso fisiológico e queda parcial da folhagem. (IBGE, 2012, p.93)

(2) - Perfil esquemático da Floresta Estacional Semidecidual. Veloso, Rangel Filho e Lima (1991) in IBGE, 2012, p.96.

O processo de apropriação e ocupação das terras que hoje compõem o município; inicialmente através da extração madeireira, depois, a cultura cafeeira e algodoeira, a pecuária e, mais recentemente, o cultivo de cana de açúcar em grandes extensões; resultou na supressão quase total dessa cobertura original, restando atualmente um pequeno percentual, restrito a poucos, pequenos e dispersos fragmentos. Assim, ao completar cem anos de existência, Presidente Prudente apresenta 72,776 Km² ainda recobertos por vegetação arbórea (incluídas aquelas utilizadas para plantios arbóreos homogêneos tais como seringais e eucaliptais), que equivalem a 12,98% de sua extensão territorial total (560,637 Km², segundo IBGE, 2016 ).

Situação atual da cobertura vegetal arbórea em Presidente Prudente/SP

A partir do “Mapa de Uso e Cobertura da Terra de Presidente Prudente – 2013”, efetuou-se a identificação e quantificação dos fragmentos de cobertura vegetal arbórea existentes. A partir dos dados obtidos foi possível elaborar produtos cartográficos derivados e estabelecer o diagnóstico preliminar da qualidade e função ecológica desses remanescentes. Assim, a partir da avaliação de atributos, tais como tamanho dos fragmentos, forma (design) dos fragmentos e distância (conectividade) entre fragmentos, apresentam-se os produtos cartográficos que apontam, entre outros atributos, a fragilidade dos fragmentos, as áreas prioritárias para a conservação e a necessidade de adoção de políticas públicas de orientação no uso da terra.

a) Mapa dos fragmentos de cobertura vegetal arbórea – Presidente Prudente/SP – 2013.

Como se constata, a área ainda recoberta por remanescentes florestais arbóreos se restringe ao conjunto de pequenos fragmentos dispersos pelo município, com maior frequência nas porções centro e sul, rareando sua presença na porção norte. Essa distribuição desigual pode ser explicada, entre outros fatores, pela existência de formas de relevo menos dissecadas aliadas à presença de solos do tipo Latossolos. Tais atributos favorecem a mecanização e maior produtividade agrícola, justificando a prática intensiva da cultura canavieira observada nas áreas de escassos fragmentos arbóreos (Figuras 1 e 2).

Figura 1 - Vista geral da cobertura do solo na zona rural de Presidente Prudente, obtida em sua porção central (Lat.7567015, Long.22K0467523 – UTM). Observa-se a presença de fragmentos arbóreos frequentes, embora estreitos e alongados.

Figura 2 - Vista geral da cobertura do solo na zona rural de Presidente Prudente, obtida em sua porção Norte (Lat.7585232, Long.22K0471937 – UTM). Observa-se a ausência de fragmentos arbóreos, suprimidos para o cultivo canavieiro.

Ainda a partir do Mapa dos fragmentos de cobertura vegetal arbórea, verifica-se que os fragmentos existentes possuem formatos alongados e estreitos, como se observa no destaque (Figuras 3).

Figura 3 - Mapa dos fragmentos de cobertura arbórea do município de Presidente Prudente, SP.

Quando ainda presentes, constituem-se em fragmentos de matas ciliares em Áreas de Preservação Permanente (APPs), geralmente interrompidos, que sobreviveram até o presente por restrições à sua supressão impostas pela legislação ambiental federal. Salienta-se que, tais fragmentos sofrem ameaças de diversas ordens, dentre as quais se destacam: incêndios, quando da utilização de queimadas para a renovação de pastos ou colheita da cana de açúcar; pisoteio ou consumo de plântulas e rebrotos arbóreos pelo gado que por eles transita livremente; por atos de vandalismo; pela coleta de espécimes para ornamentação ou fabricação de artesanato; pela prática da caça e da pesca predatória; pela deposição de entulho e resíduos em seu interior; e, colonização por espécies exóticas invasoras agressivas, entre outros fatores.

Com relação ao tamanho dos fragmentos arbóreos existentes, o Quadro 1 atual também não é nada animador.

Quadro 1 - Fragmentos de cobertura arbórea segundo tamanho das áreas.

Constata-se que mais de 40% dos fragmentos possuem extensões menores que 10 hectares e quase 90% dimensões menores que 50 ha. Tais dados indicam a fragilidade dos fragmentos ao efeito de borda, por onde tendem a se degradar. Por outro lado, os três fragmentos contínuos de maiores extensões, que indicam maior biodiversidade e melhores dinâmicas nos fluxos de energia e matéria (Figura 4, 5 e 6).

Figura 4 - Fragmento conhecido como “Mata do Furquim”, que possui 1,13 Km² (113 ha).

Figura 5 - Fragmento arbóreo da “Cidade da Criança”, que possui 0,99 Km² (98,8 ha).

Figura 6 - Fragmento arbóreo aqui denominado “Fragmento da Usina”, que possui 0,91 Km² (91,2 ha).

Em relação ao formato (desenho) dos fragmentos existentes, em Biogeografia temos um conceito chamado “Efeito de Borda” que, em síntese, afirma que todo fragmento florestal ou área de preservação tende a se deteriorar a partir de seus limites externos. Essa deterioração ocorre por conta de diversas pressões, tais como excesso de insolação, ventos, perda de umidade, entrada de espécies invasoras nocivas etc. Portanto, quanto mais irregular a forma de um fragmento, maior a sua vulnerabilidade e a velocidade com que se deteriora.

Assim, o efeito de borda será tanto menor quanto mais próxima de um círculo for a forma do fragmento em estudo. Para estabelecer um índice que permita avaliar a qualidade dos fragmentos em relação ao desenho de cada um, adotou-se o conceito de “Índice de Circularidade”, onde o índice j (Polígono) estará tão mais próximo de 1 quanto mais próximo de um círculo o polígono estiver e tão mais próximo de 0, quanto mais distante de um círculo o polígono estiver.

Desta forma, foram obtidos os seguintes resultados (Quadro 2):

Quadro 2 - Fragmentos de cobertura arbórea segundo relação perímetro/área (ou Índice de Circularidade).

Constata-se que, aproximadamente, 70% dos fragmentos possuem formato estreito e alongado, também indicando maior fragilidade ao efeito de borda e, portanto, à sua continua degradação e perda de importância ecológica.

Outro aspecto que indica a gravidade do atual quadro ambiental no tocante aos seus fragmentos arbóreos refere-se à baixa conectividade entre eles. A interrupção e o distanciamento entre eles evidenciam restrições à circulação da fauna e também limitações à realização de fluxos gênicos seja entre animais ou vegetais. Tal quadro se explicita diante do mapa da Figura 7, a partir da inserção de um buffer de 100 metros ao redor de cada fragmento identificado.

Figura 7 - Mapa de conectividade entre fragmentos de cobertura vegetal arbórea do município de Presidente Prudente/SP.

Sabe-se que a riqueza biológica diminui com o aumento do isolamento dos fragmentos, onde os fragmentos mais distantes entre si tendem a ter menores taxas de colonização por estarem mais distantes de fontes colonizadoras, como os fragmentos de maiores dimensões. Sabe-se, também, que essas possibilidades de conexão entre fragmentos são diferenciadas em função de cada espécie, das diferentes capacidades de dispersão destas e do tipo de uso e cobertura da terra no entorno do fragmento. Uma área de pastagens pode, para algumas espécies, representar menor limitação à dispersão e/ou isolamento que áreas de cultivo intensivo de cana de açúcar, de plantio homogêneo de eucaliptos ou de ocupação urbana de alta densidade.

Todavia, a adoção do buffer de 100 metros permite definir locais onde, com pouca intervenção e, portanto, poucos investimentos, podem ser implantados projetos de plantios de revegetação. Assim, pode-se melhorar o potencial ecológico dessas áreas e retardar o processo de deterioração desses fragmentos. Assim, é possível identificar áreas prioritárias para a integração de fragmentos fragilizados (seja por suas pequenas dimensões, por seu desenho inadequado ou por seu isolamento que induz às limitações de fluxos genéticos entre os espécimes ali presentes); além, evidentemente, da rede hidrográfica desprovida de matas ciliares que necessitam com urgência de sua recuperação.

A somatória dos atributos analisados e expostos explicita uma realidade que aponta a extrema fragilidade dos remanescentes florestais, indicando a extrema urgência em adotar práticas de recuperação que permitam restaurar suas funções ecológicas e sua qualidade ambiental. Sugere-se a adoção de políticas públicas que incentivem a manutenção adequada dos fragmentos remanescentes e a recuperação de matas ciliares ao longo de toda a rede hidrográfica do município. Assim, objetiva-se a melhoria, não apenas da qualidade e quantidade de recursos indispensáveis à qualidade de vida e da geração de renda – como os recursos hídricos e pedológicos -, como também o aumento da biodiversidade, indispensável à realização dos fluxos de energia e matéria que sustentam a vida no planeta.

  Referências Bibliográficas

BEGON, M. Ecologia: de Indivíduos a Ecossistemas.Porto Alegre: Artmed, 2007.

CARVALHO, Cláudio; ALMEIDA, Eduardo (Orgs). Biogeografia da América do Sul: padrões e processos. São Paulo: Ross, 2010.

CHRISTOFOLETTI, Antonio et alii. Geografia e Meio Ambiente no Brasil. SP., Hucitec, 1995.

COCKELL, Charles (org). Sistema Terra-vida: uma introdução. São Paulo: Oficina de Textos, 2011.

COX, C. Barry; MOORE, Peter. Biogeografia - uma abordagem ecológica e evolucionária. Rio de Janeiro; LTC, 2009.

FIGUEIRÓ, Adriano S.; Biogeografia: dinâmicas e transformações da natureza. São Paulo : Oficina de Textos, 2015.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Manual Técnico da Vegetação Brasileira. In Manuais Técnicos em Geociências, nº 1, 2ª ed. (revista e ampliada), Rio de Janeiro : FIBGE, 2012, 271p.

ODUM, E. Eccologia. SP:Pioneira, 1969.

ROSS, Jurandyr L. Sanches. Geografia do Brasil. Edusp.1996.

TRICART, J. (1977). Ecodinâmica. RJ: IBGE.

TROMPPMAIR, H. Biogeografia e meio Ambiente. Instituto de geociências e Ciências Exatas da Universidade Estadual Paulista - Rio Claro, 2002

SITES

http://cidades.ibge.gov.br/xtras/perfil.php?lang=&codmun=354140&search=sao-paulo|presidente-prudente