Síntese Ambiental


Saneamento Básico

Encarnita Salas Martins

ABASTECIMENTO DE ÁGUA DE PRESIDENTE PRUDENTE

O Sistema de Abastecimento de Água de Presidente Prudente conta com três mananciais superficiais:

1) Sistema do Rio do Peixe: em funcionamento desde 14 de setembro de 1998 e responde por cerca de 75% do total de água necessário. Para captar a água do Rio do Peixe, foi construído um sistema que conta com uma adutora (tubulação) de 42 km de comprimento. A água leva cerca de 14 horas para chegar na Estação de Tratamento. São captados cerca de 750 l/s e a ETA trata, em média, 69 milhões de litros por dia (Figura 1).

Figura 1 - Sistema de Captação do Rio do Peixe

2) Rio Santo Anastácio: contribui com cerca de 25% do total. Como a vazão média da água no Rio Santo Anastácio varia muito de acordo com as chuvas e é preciso garantir o fornecimento de água o ano todo, em 1968 foi construída uma barragem para criar o chamado Reservatório de Abastecimento de Água de Presidente Prudente (ou Represa do Rio Santo Anastácio). Trata-se uma represa constituída pelo Rio Santo Anastácio e pelos Córregos Botafogo, Cedro e Cedrinho e que foi ampliada no início da década de 80, devido à um período bastante seco, que atingiu a cidade. Atualmente o volume reservado total é de 2.239.000 m3 e o volume reservado útil é de 1.720.000 m3. (Figura 2). Podem ser captados até 450 l/s, os quais são transportados por cerca de 10,6 km para a Estação de Tratamento de Água de Presidente Prudente (E.T.A.).

Figura 2 - Reservatório de Abastecimento de Água de Presidente Prudente

3) Represa do Balneário da Amizade: construída no final da década de 70 na divisa entre os municípios de Presidente Prudente e Álvares Machado. Começou a ser utilizada para o abastecimento urbano em 1985, em razão da seca prolongada. O volume reservado total é de 2.066.000 m3 e o volume reservado útil é de 1.643.000 m3. Outrora responsável por cerca de 30% da água superficial captada para abastecer Presidente Prudente, atualmente a utilização desse manancial ocorre apenas em casos emergenciais (Figura 3).

Figura 3 – Represa do Balneário da Amizade

A água que é captada dos rios é levada, através de canos, para a Estação de Tratamento de Água – E.T.A., para que receba o tratamento necessário para que atenda à Portaria 2914 de 12/12/2011 do Ministério da Saúde e se torne potável.

A ETA de Presidente Prudente trata cerca de 69 milhões de litros de água por dia. É utilizado o chamado Tratamento Convencional, que consiste de diferentes etapas. Segundo a Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo – SABESP, cada etapa exige um rígido controle de dosagem de produtos químicos e acompanhamento dos padrões de qualidade.

As etapas são:

a) Pré-cloração – Primeiro, o cloro é adicionado assim que a água chega à estação. Isso facilita a retirada de matéria orgânica e metais.

b) Pré-alcalinização – Depois do cloro, a água recebe cal ou soda, que servem para ajustar o pH aos valores exigidos nas fases seguintes do tratamento. Fator pH –O índice pH refere-se à água ser um ácido, uma base, ou nenhum deles (neutra). Um pH de 7 é neutro; um pH abaixo de 7 é ácido e um pH acima de 7 é básico ou alcalino. Para o consumo humano, recomenda-se um pH entre 6,0 e 9,5.

c) Coagulação – Nesta fase, é adicionado sulfato de alumínio, cloreto férrico ou outro coagulante, seguido de uma agitação violenta da água. Assim, as partículas de sujeira ficam eletricamente desestabilizadas e mais fáceis de agregar.

d) Floculação – Após a coagulação, há uma mistura lenta da água, que serve para provocar a formação de flocos com as partículas.

e) Decantação – Neste processo, a água passa por grandes tanques para separar os flocos de sujeira formados na etapa anterior.

f) Filtração – Logo depois, a água pelos filtros que são camadas constituídas de diferentes materiais, como pedras, areia e carvão antracito e que vão filtrar as partículas de sujeira que não ficaram retidas na etapa da Decantação.

g)Pós-alcalinização – Em seguida, é feita a correção final do pH da água, para evitar a corrosão ou incrustação das tubulações.

h)Desinfecção – É feita uma última adição de cloro no líquido antes de sua saída da Estação de Tratamento. Ela garante que a água fornecida chegue isenta de bactérias e vírus até a casa do consumidor.

i)Fluoretação – O flúor também é adicionado à agua. A substância ajuda a prevenir cáries.

A seguir é mostrada a imagem da Estação de Tratamento de Água de Presidente Prudente (Figura 4).

Figura 4 – Estação de Tratamento de Água de Presidente Prudente,SP.

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TRATAMENTO DO ESGOTO DE PRESIDENTE PRUDENTE

Presidente Prudente produz, atualmente, cerca de 55 milhões de litros de esgoto diariamente.

A Estação de Tratamento de Esgotos de Presidente Prudente – ETE - foi inaugurada em 17 de setembro de 2004 e está localizada na Rodovia Júlio Budiski (SP 501), Km 8, às margens do Córrego Limoeiro e despeja o esgoto tratado nesse mesmo curso d’água.

Na ETE “o método utilizado nas grandes estações de tratamento é por lodos ativados, onde há uma fase líquida e outra sólida". O método, desenvolvido na Inglaterra em 1914, é amplamente utilizado para tratamento de esgotos domésticos e industriais.

O processo é totalmente biológico e se dá em presença de oxigênio (aeróbio)e funciona da seguinte maneira: o esgoto bruto (sem tratamento) e o lodo ativado são misturados, agitados e aerados em tanques de aeração. Após este procedimento, o lodo é enviado para o decantador secundário, onde a parte sólida é separada do esgoto tratado. O lodo sedimentado retorna ao tanque de aeração ou é retirado para tratamento específico.

A E.T.E. possui 3 tanques com capacidade para 9.352 m3 de esgotos cada. O corpo receptor dos esgotos tratados é o Córrego Limoeiro, que é afluente do Rio Santo Anastácio. Segundo a SABESP, a ETE apresenta a seguinte Eficiência de Remoção: 95% da Carga Orgânica, 95% dos Sólidos Sedimentáveis, 100% dos Coliformes Fecais e 100% dos Estreptococos Fecais. A Vazão Média de entrada é de cerca de 500 L/s.

A cidade de Presidente Prudente é considerada “cidade 300%”, ou seja, tem 100% de abastecimento de água, 100% de esgoto coletado e 100% de esgoto tratado. Na Figura 5 a seguir, pode-se ver uma imagem da Estação de Tratamento de Esgotos de Presidente Prudente, a E.T.E Limoeiro.

Figura 5 – Estação de Tratamento de Esgotos de Presidente Prudente, SP.

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RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS (LIXO) DE PRESIDENTE PRUDENTE

Um sistema de limpeza pública consiste das seguintes etapas: Coleta dos Resíduos Sólidos Urbanos, Transporte, Disposição Final. Em Presidente Prudente as duas primeiras etapas funcionam bem, sendo que a coleta é feita diariamente nas áreas mais centrais da cidade e 3 vezes por semana nos demais bairros. A coleta e o transporte são feitos com a utilização de caminhões compactadores que comprimem os resíduos, para que possam transportar uma quantidade maior de cada vez.

Presidente Prudente produz, atualmente, cerca de 220 toneladas de lixo por dia, o que perfaz quase 1 quilo de lixo por habitante por dia.

Grande parte desse lixo vem sendo enterrada, desde 1997, em um Aterro Simples (Lixão), localizado na área do Núcleo Industrial Antonio Crepaldi, às margens da Rodovia Raposo Tavares, Km 564. Os Lixões são considerados a pior forma de disposição dos resíduos sólidos, uma vez que causam problemas sanitários e ambientais, tais como:

  • poluição visual;

  • poluição do ar;

  • poluição do solo, das águas superficiais e subterrâneas;

  • atrai e favorece a proliferação de insetos e roedores;

  • apresenta riscos de explosão devido à produção de gás metano;

  • a área apresenta instabilidade, devido à decomposição e perda de volume da matéria orgânica.

Na Figura 6 a seguir, pode-se observar a extensão da área do Lixão, que já chegou até ao limite de todas as propriedades particulares do entorno, bem como a todos os cursos d’água, não havendo mais espaço para se estender. Verifica-se, também, a constituição de patamares para que as camadas de lixo sejam estabilizadas e de lagoas de tratamento de chorume, medidas que fazem parte do projeto de encerramento.

Figura 6 – Lixão de Presidente Prudente, SP.

No dia 2 de dezembro de 2016 ocorreu o encerramento oficial do lixão, dado o esgotamento de sua vida útil, mas ainda não havia sido aprovada a área para a instalação do Aterro Sanitário. Nas imagens a seguir (Figuras 7 e 8), pode-se observar o lixão em fase de encerramento e a construção das lagoas para armazenamento de chorume.

Figura 7 – Lixão de Presidente Prudente em processo de encerramento

Figura 8 – Lagoas de chorume do Lixão de Presidente Prudente

Em 2003 foi constituída, na cidade, a Cooperativa de Trabalhadores de Produtos Recicláveis de Presidente Prudente – COOPERLIX, que realiza a coleta seletiva e a triagem de materiais recicláveis, o que vem sendo uma importante contribuição para o meio ambiente e para a cidade. A reciclagem e o reuso de materiais e substâncias permitem que menos recursos naturais sejam explorados diretamente da natureza, levando às seguintes vantagens: conservação dos recursos naturais, economia de energia, economia de água, conscientização da população, desenvolvimento de novos produtos pela indústria e o aumento da vida útil dos aterros, na medida em que menos materiais são enterrados.

Na Figura 9, pode-se observar a esteira de separação de materiais da COOPERLIX.

Figura 9 – COOPERLIX – Esteira de separação de materiais recicláveis

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  Referências Bibliográficas

MARTIN, Encarnita Salas; MAZZINI, Eliane de Jesus Teixeira Disposição final do lixo em Presidente Prudente: de 1923 a 2010. TÓPOS, V. 4, No. 2, p. 109 – 143, 2010. Disponível em: http://www4.fct.unesp.br/revistas/topos/artigo/87

SITES ACESSADOS

http://camarapprudente.sp.gov.br/historia/hist_oeste/cidades/pprudente/aguaenergia.html. Acesso em 13 de julho de 2016.

http://site.sabesp.com.br/site/interna/Default.aspx?secaoId=49. Acesso em 13 de julho de 2016


Áreas Verdes Urbanas

Áreas Verdes Públicas na Cidade de Presidente Prudente

Mariana Cristina da Cunha Souza; Margarete C. Costa Trindade Amorim

Na esfera municipal, o Plano Diretor (1 e 2) e a Lei de Parcelamento do Solo Urbano são instrumentos jurídicos fundamentais na determinação das políticas públicas de desenvolvimento e ordenamento territorial urbano, bem como no processo de implantação de áreas verdes públicas.

(1) Instrumento jurídico obrigatório para as cidades com mais de vinte mil habitantes, conforme a previsão legal no artigo 182, § 1º, da Constituição Federal de 1988. (2) Disponível em: [http://www.presidenteprudente.sp.gov.br/site/Documento.do?cod=606].

Em Presidente Prudente, a Lei Complementar Nº 151/2008 dispõe sobre o Plano Diretor do Município , e regulariza o modo como será desenvolvido o seu espaço urbano e rural. No Art. 2º são definidos os seus objetivos principais:

I. Assegurar que a ação pública ocorra de forma planejada, tanto na área rural como urbana;

II. Assegurar a função social da propriedade urbana;

III. Estabelecer as exigências fundamentais de ordenação da cidade;

IV. Ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade, tanto na área rural como urbana;

V. Orientar os investimentos públicos, tanto na área rural como urbana, e;

VI. Assegurar a função social da área rural.

No texto do Plano Diretor não são apresentadas conceitos específicos a respeito das áreas verdes públicas. São observadas referências a essas áreas urbanas em seu Art. 21º, que versa sobre a política habitacional e seus objetivos. No que se refere às áreas verdes fica estabelecido que a política habitacional se responsabilize em:

V. Assegurar que, nos conjuntos habitacionais a serem implantados, sejam reservadas as áreas de convívio social para a população, áreas verdes e praças, nos percentuais estabelecidos pela legislação de parcelamento do solo em vigor.

O Plano Diretor normaliza a ação pública para que a função social da cidade seja legitimada. Por sua vez, a Lei de Parcelamento do Solo Urbano aborda questões mais práticas sobre o uso e a separação do solo, em relação à implantação de novos loteamentos e aos já existentes. No caso de Presidente Prudente, a Lei Complementar Nº 154/2008 que dispõe sobre o Parcelamento do Solo para Fins Urbanos , em seu Art. 1º estabelece seu objetivo principal:

I. Orientar e controlar todo o parcelamento do solo efetuado no território do Município de Presidente Prudente, assegurando a observância das normas federais relativas à matéria e zelando pelos interesses do município, no que diz respeito às necessidades para seu desenvolvimento.

Em seu Art. 2º trata das seguintes definições:

V. ÁREA DE LAZER - São as áreas a serem doadas ao município para fins de construção de praças, parques e outras atividades de recreação. VIII. ÁREA PÚBLICA - São compostas de Áreas Institucionais, de Lazer, NON AEDIFICANDI (é a área de terra na qual é vedada a edificação de qualquer natureza e assim definida em Lei), Sistema Viário e Áreas de Preservação.

No Art. 12º normatiza que os loteamentos deverão atender, pelo menos, aos seguintes requisitos:

II. As áreas públicas, depois de descontadas as áreas de preservação, não serão inferiores a 35% (trinta e cinco por cento) da gleba total, III. As áreas públicas compor-se-ão, no mínimo de: b) Áreas de lazer: 10% (dez por cento) a 15% (quinze por cento) da área loteável.

Na literatura científica, as áreas verdes públicas são conceituadas como os Espaços Livres onde predominam a vegetação de porte arbóreo, e que cumprem fundamentalmente três funções: a estética, a ecológica e a de lazer/social. Na área, o solo permeável deve ocupar pelo menos 70% do lote, que de acesso livre/público, não possuí regras rígidas para sua utilização (NUCCI, 2008).

De acordo com a Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente/CONAMA Nº 369/2006, Art. 8º, § 1º, uma área verde é todo “o espaço de domínio público que desempenhe função ecológica, paisagística e recreativa, propiciando a melhoria da qualidade estética, funcional e ambiental da cidade, sendo dotado de vegetação e espaços livres de impermeabilização”.

Portanto, são elementos indispensáveis ao equilíbrio ambiental urbano, e importantes indicadores de qualidade na escala da cidade, cujos principais benefícios traduzem-se em melhorias ecológicas, sociais e estéticas (Quadro 1).

Quadro 1 - Síntese das funções desempenhadas pelas áreas verdes públicas

Com base em dados cedidos pela Secretaria de Meio Ambiente (SEMEA) de Presidente Prudente foi possível diagnosticar ambientalmente um conjunto de 116 áreas verdes públicas, constituído de parques e praças. No Quadro 2 verifica-se a identificação numérica (ID) e nominal (IN) das áreas que compõem esse conjunto, e na Figura 1 visualiza-se o modo como o mesmo está espacializado, dando destaque as diferentes divisões da malha urbana: Norte, Sul, Leste e Oeste .

(5) As divisões da malha urbana foram instituídas apenas com finalidades de análises. Os critérios utilizados para determinar cada divisão foram: proximidade com o núcleo urbano inicial da cidade (implantado a leste) e informações verificadas do histórico de expansão territorial urbana.

Quadro 2 - Lista das áreas verdes públicas diagnosticadas ambientalmente da malha urbana em Presidente Prudente,SP. Para fotos do local, CLIQUE AQUI.

Figura 1 - Áreas verdes por divisões da malha urbana em Presidente Prudente, SP.

Na Tabela 1 são detalhados dados referentes à quantidade de áreas verdes existentes em cada divisão da malha urbana, bem como informações sobre o total em m² do conjunto em cada uma delas (6).

(6) As medições foram realizadas com auxílio dos programas ArcGis, versão 10.1 e Google Earth. Portanto, não representam dados obtidos empiricamente

Tabela 1 – Quantidade absoluta de áreas verdes e por m²

(7) Implantada fora dos limites do setor censitário, e por isso, reportada individualmente quando necessário

Analisando-se as informações contidas na tabela 1 é possível afirmar que:

(I) Na divisão norte está implantado 32% das áreas verdes avaliadas, todavia, em termos de área por m², é a divisão menos favorecida, sendo contemplada com 13% do total;

(II) Na divisão sul está implantado 22% do conjunto de áreas verdes, que em m² significam uma porcentagem de 29% do total calculado;

(III) A divisão leste é beneficiada com 26% de áreas verdes, que somam 15% do total de m²;

(IV) Menos de 1% encontra-se implantada em descontinuidade à malha urbana, fora dos limites do setor censitário, porém, significa 19% de m²;

(V) A divisão oeste congrega 19% de áreas verdes, que significam 24% de m² totais das áreas verdes públicas avaliadas.

A espacialização cartográfica permite o reconhecimento de concentrações e ausências de áreas verdes públicas na escala intraurbana, confirmando o fato de que os bairros da cidade são contemplados de maneira irregular por essas áreas (Figura 2).

Figura 2 – Localização das áreas verdes públicas na malha urbana em Presidente Prudente, SP.

Ao considerar uma perspectiva histórica da expansão territorial urbana em Presidente Prudente, conclui-se que os bairros da divisão leste (centro antigo), norte e oeste, ocupados até o final da década de 1970, possuem maiores quantidades de áreas verdes públicas.

Por outro lado, é menor a incidência em bairros periféricos também da divisão leste, norte e oeste, todavia, com ocupação histórica mais recente, entre as décadas de 1970 e 1990.

No que concerne à qualidade ambiental nas áreas verdes da cidade, e mais detalhadamente quando se tomam como referência os indicadores geoambientais:

(a) Disposição Espacial e Densidade da Vegetação Arbórea na Área Verde;

(b) Aspectos Físicos e Sanitários da Vegetação;

(c) Cobertura Predominante do Solo,

(d) Condição do Relevo (Função ecológica);

(e) Mobiliário e Equipamentos Existentes na Área Verde (Função social), e;

(f) Aspecto Geral da Área Verde (Limpeza e Conservação) (Função estética), o resultado obtido é considerado satisfatório, tendo em vista o Índice de Qualidade Ambiental (IQA) (8), cujo valor final para Presidente Prudente é de 0,69.

(8) Ver aplicação do índice em: CUNHA SOUZA, M. A. Diagnóstico da Qualidade Ambiental nas Áreas Verdes Públicas em Presidente Prudente (SP). Dissertação (Mestrado em Geografia). FCT/UNESP, Presidente Prudente, 2016.

O IQA é composto pelos indicadores supracitados, e o padrão satisfatório encontra-se no intervalo de 0,66 a 0,82. O índice congrega avaliações referentes às funções ecológicas, sociais e estéticas (Tabela 2), já que essas são os principais fatores que justificam a presença das áreas verdes no espaço da cidade.

Tabela 2 – Média das avaliações das áreas verdes públicas, de acordo com as funções básicas: ecológica, social e estética

Os resultados do IQA, espacializados na Figura 3, comprovam que existem diferenças relevantes em Presidente Prudente, que necessariamente obedecem aos arranjos socioespaciais e de produção do espaço urbano na cidade, já que desde o início da sua expansão territorial, priorizaram-se determinadas partes em detrimento de outras, como da divisão sul (constantemente em valorização), seguida da divisão leste (núcleo urbano inicial da cidade), onde a qualidade ambiental nas áreas verdes classifica-se em condições mais ideais, a julgar pela dimensão ecológica, social e estética.

Figura 3 – Carta síntese do IQA na malha urbana em Presidente Prudente (SP)

Em contrapartida, na divisão norte e oeste, sobretudo na periferia habitada pela população de menor renda (áreas mais descontínuas à malha urbana), as áreas verdes públicas obedecem a um padrão classificado como satisfatório (índice entre 0,66 a 0,82) e ruim (índice entre 0,33 a 0,65). Ademais, geralmente, inserem-se no contexto de alta e média exclusão social, segundo a Carta Síntese de Exclusão e Inclusão da cidade desenvolvida pelo Centro de Estudos e de Mapeamento da Exclusão Social para Políticas Públicas (CEMESPP) da FCT/UNESP de Presidente Prudente (SP).

A Carta Síntese supracitada foi elaborada a partir da avaliação de dados e informações levantadas pelo recenseamento demográfico, realizado pelo IBGE no ano de 2010. Foram utilizados como indicadores sociais de exclusão e inclusão, os seguintes aspectos: número de habitantes por domicílio; chefes de família de 10 a 19 anos; número de domicílios sem banheiro; número de domicílios com (quatro) banheiros ou mais; número de domicílios ligados à rede de coleta de esgotos; chefe de família sem rendimento; chefe de família com renda em até dois salários mínimos; chefe de família com rendimento superior a 20 salários mínimos; taxa de analfabetismo de 10 a 14 anos; e taxa de chefes de família analfabetos (CAMACHO, 2013).

No Quadro 3 está exposto um exemplo de área verde que obteve IQA considerado menos ideal (Exemplo: ID-72/IQA 0,39), e um exemplo que obteve IQA tido como ideal (Exemplo: ID-103/IQA 0,97).

Quadro 3 - Vista parcial de áreas verdes com baixo e alto IQA

As imagens acima se contrapõem em propriedades específicas. No exemplo da área verde com um dos menores IQAs, observa-se que a vegetação de porte arbóreo encontra-se disposta de modo irregular na área verde, não sombreando o pouco mobiliário e equipamentos existentes no centro, e deixando-os diretamente expostos aos raios solares. Além disso, a vegetação necessita de manejo, já que algumas árvores estão com aspectos físicos e sanitários pouco satisfatórios.

Por outro lado, na área verde com IQA classificado como bom (índice entre 0,83 a 1,00), percebe-se que a vegetação de porte arbóreo está dispersa pela área verde, de maneira que protege o mobiliário e equipamentos da incidência direta da radiação solar, que é bastante diverso quando comparado ao exemplo menos ideal. Soma-se a isso, o fato de que na área verde a paisagem se harmoniza com os indicadores ambientais avaliados.

A fim de sintetizar as análises apresentadas, considera-se que na área urbana de Presidente Prudente:

(I) As áreas verdes melhores avaliadas no desempenho da função ecológica se concentram, especialmente, na divisão sul e oeste da malha urbana;

(II) As que obtiveram as melhores avaliações, no que tange à função social, estão implantadas na divisão norte e leste;

(III) Aquelas cujas avaliações foram mais positivas tendo como referência a função estética estão localizadas na divisão sul;

(IV) O conjunto de áreas verdes diagnosticadas ambientalmente desempenha melhor a função estética, seguida da ecológica, e por último a social;

(V) Os melhores IQAs estão primeiramente na divisão sul, seguidos pela divisão leste;

(VI) Os piores IQAs estão situados na divisão oeste da malha urbana, seguido pela divisão norte;

(VII) Os IQAs também foram melhores nas divisões (loteamentos/bairros) que, historicamente, foram valorizados por meio de políticas públicas de reurbanização, cujos investimentos representam uma associação entre poder público local e capital privado.

  Referências Bibliográficas

AMORIM, M. C. C. T. Análise ambiental e qualidade de vida na cidade de Presidente Prudente/SP. Dissertação (Mestrado em Geografia) – FCT/UNESP, Presidente Prudente, 1993.

BOIN, M. N. Chuvas e erosões no Oeste Paulista: Uma análise climatológica aplicada. Tese (Doutorado em Geografia). UNESP. Rio Claro, 2000.

BRASIL. Constituição. Resolução do CONAMA nº 369, de 28.03.2006, 1998. [http://www.siam.mg.gov.br/sla/download.pdf?idNorma=5486]. Acessado em: 25 de fev. 2016.

CAMACHO, V. A. L. Problematizando mudanças espaciais e temporais entre os censos dos anos de 2000 e 2010: Os mapas da exclusão/inclusão social de Presidente Prudente/SP. Monografia (Graduação em Geografia). – Presidente Prudente, SP: UNESP, 2013.

CAVALLI, A. C., GUILLAUMON JR, R.; SERRA FILHO R. Levantamento da cobertura vegetal e do reflorestamento no estado de São Paulo. Boletim Técnico do Instituto Florestal, São Paulo, v.11, 1974.

FIORI, A. M. Um método para medir a sombra. Revista FAPESP Pesquisa. São Paulo: FAPESP, n. 61, 2001, p. 26-29.

HONDA, S. C. A. L. Habitação de baixa renda como produto do capital: o programa de arrendamento residencial (PAR) em Presidente Prudente. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2011.

LOMBARDO, M. A. Vegetação e Clima. Anais... Encontro Nacional sobre Arborização Urbana. Curitiba. FUPEF/PR, 1990.

MILANO, M. S. Avaliação e análise da arborização de ruas de Curitiba - PR. Dissertação (Mestrado em Ciências Florestais) - Universidade Federal do Paraná, Curso de Pós-Graduação em Engenharia Florestal, Curitiba, 1984.

MORERO, A. M.; SANTOS, R. F.; FIDALGO, E.C.C. Planejamento ambiental de áreas verdes: estudo de caso de Campinas-SP. Revista do Instituto Florestal, v19, n1, 2007, p. 19-30.

NUCCI, J. C. Qualidade Ambiental e adensamento urbano: Um estudo de ecologia e planejamento da paisagem aplicado ao distrito de Santa Cecília (MSP). 2ª ed. – Curitiba: O Autor, 2008.

SEMADUR (Secretaria do Verde e do Meio Ambiente). Manual Técnico de Arborização Urbana: Prefeitura da Cidade de São Paulo. 2ª ed., 2005. [http://www.capital.ms.gov.br/semadur/canaisTexto?id_can=6361]. Acessado em: 07 de jun de 2016.

SILVA JÚNIOR, P. R. A importância das áreas verdes. Centro de Distribuição de Amostras. Piracicaba, São Paulo, 2006.

SPOSITO, M. E. B. O chão em Presidente Prudente: a lógica da expansão territorial urbana. Dissertação (Mestrado em Geografia). Rio Claro: UNESP, 1983.

GLOSSÁRIO

ÁREAS VERDES PÚBLICAS: áreas de domínio público, que apresentam solo permeável em porcentagem igual ou superior a 70% de todo o terreno ocupado, com a presença marcante da vegetação de porte arbóreo, e que dispõe de equipamentos, mobiliário e infraestrutura que possibilitam a realização de atividades físicas, esportivas e práticas de lazer, além de não possuir regras rígidas para sua utilização.

DIAGNÓSTICO AMBIENTAL: conhecimento integrado de uma situação ambiental, adquirido por meio de análise dos indicadores característicos da área de estudo, que podem determinar a sua qualidade ambiental.

ESPAÇO PÚBLICO: refere-se ao conjunto de espaços pertencentes ao uso coletivo, enquanto grupos sociais. Por exemplo, ruas e praças, que são consideradas de domínio público, em detrimento das residências, de domínio particular.

INDICADOR GEOAMBIENTAL: aspecto físico-natural e/ou socioespacial, que integra o conjunto de atributos existentes na paisagem, passível de ser avaliado e mensurado qualitativamente e quantitativamente.

POLÍTICAS PÚBLICAS: conjunto de programas, ações e decisões planejado e formatado pelos governos, em esfera nacional, estadual e/ou municipal, com o auxílio direto ou indireto dos agentes públicos e privados, cuja finalidade é assegurar determinados direitos para os diversos grupos sociais.

QUALIDADE AMBIENTAL: resultado da interação, harmoniosa, entre os elementos naturais e não naturais da paisagem, refletida no seu equilíbrio ambiental.

RADIAÇÃO SOLAR: fonte de energia primária, proveniente dos raios solares, e transmitida sob a forma de radiação eletromagnética.

VEGETAÇÃO DE PORTE ARBÓREO: conjunto de árvores que apresentam portes maiores, com copas mais densas e acima de um metro de altura em relação ao chão.


Áreas Verdes Urbanas

Áreas Verdes Públicas nos Distrito Urbanos de Presidente Prudente

José Mariano Caccia Gouveia; João Baccarin Xisto Paes; João Paulo de Oliveira Pimenta

Segundo os mesmos referenciais adotados para as áreas verdes urbanas da sede do município de Presidente Prudente,SP, relacionam-se a seguir as áreas verdes públicas localizadas nos distritos prudentinos. Em cada local foram destacadas as suas principais características, com ênfase à área, cobertura vegetal e equipamentos disponíveis.

Distrito de Montalvão (Figura 4)

Figura 4 - Distrito de Montalvão, destacando em amarelo suas duas áreas verdes públicas

Área 1: Localizada na porção sul do distrito, na Rua Osvaldo Cruz. Obs: não foi identificado o nome oficial da praça.

Apresenta-se gramada, com pouca arborização, constituída predominantemente por mudas arbóreas de espécies nativas recém plantadas. Além destas, indivíduos jovens de oitis (Licania tomentosa) próximos ao campo de futebol. Como equipamentos apresenta campo de futebol, academia ao ar livre, parque infantil, bancos, central de wi-fi, teatro de arena, pista de caminhada, quadra de vôlei, e campo de malha (Figura 5 e 6).

Figura 5 - Vista geral da Área 1, com campo de futebol e oitis (Licania tomentosa) jovens.

Figura 6 - Vista geral da Área 1, com academia ao ar livre, bancos, central de wi-fi, e pista de caminhada.

Área 2: Localizada na porção norte do distrito, na Rua Pioneiro Antônio Miola. Obs: não foi identificado o nome oficial da praça.

Por ser uma praça nova apresenta-se gramada e com poucas árvores recém plantadas, ainda com alturas inferiores a 1,50m, e com muitas delas mortas quando realizados os levantamentos de campo (02/12/2016).

Como equipamentos apresenta bancos, quadra poliesportiva, centro de wi-fi, parque infantil, e academia ao ar livre.

Em área contínua a esta praça constata-se a presença de amplo fragmento florestal, de aproximadamente 18 ha, destacado em verde na Figura 4. Considerando seu tamanho, porte e biodiversidade, recomenda-se sua transformação em Unidade de Conservação municipal, com vistas à sua conservação e utilização para práticas relacionadas ao lazer e à educação ambiental (Figuras 7 e 8).

Figura 7 - Quadra poliesportiva localizada na Área 2. Ao fundo da imagem, fragmento florestal remanescente, o qual se recomenda transformar em Unidade de Conservação Municipal.

Figura 8 - Central de wi-fi e academia ao ar livre na Área 2. Ao fundo da imagem, importante fragmento florestal remanescente.

Distrito de Floresta do Sul (Figura 9)

Figura 9 - Distrito de Floresta do Sul, destacando em amarelo suas duas áreas verdes públicas

Área 1: Localizada na porção norte do distrito, na Rua Sebastião Rodrigues de Souza. Não foi identificado o nome oficial da praça. Apresenta-se gramada, com falhas nas áreas mais frequentadas ou utilizadas para a prática de esportes. Possui arborização de baixa densidade, constituída predominantemente por oitis (Licania tomentosa) e ipês (Tabebuia sp.).

Como equipamentos apresenta campinho de futebol, academia ao ar livre, quadra de vôlei em areia/grama, parque infantil, bancos, e central de wi-fi (Figuras 10 e 11).

Figura 10 - Vista geral da Área 1, contendo área gramada, parque infantil, academia ao ar livre e, ao fundo, quadra de vôlei.

Figura 11 - Central de wi-fi na Área 1.

Área 2: Praça Estevam Rodrigues de Souza, localizada na porção central do distrito, na Rua Sebastião Rodrigues de Souza.

Apresenta-se gramada, com jardins bem cuidados e bem arborizada, com diversos exemplares de oiti (Licania tomentosa). Distribui-se pelo quarteirão que envolve a Igreja Sagrado Coração de Jesus da Paróquia Nossa Senhora das Graças, ao lado do Estádio de Futebol Joaquim Roberto – “Joaquinzão”.

Como equipamentos apresenta banheiros públicos, bancos, campo de malha, e mesas de jogos (Figura 12 e 13).

Figura 12 - Igreja Sagrado Coração de Jesus, na Praça Estevam Rodrigues de Souza.

Figura 13 - Vista parcial da Praça Estevam Rodrigues de Souza.

Área 3: Localizada na porção leste do distrito, entre a Avenida Hugo Orbolato e a Rua Victor Rodrigues. Obs: não foi identificado o nome oficial da praça.

Trata-se de Praça recém construída, que se apresenta gramada e com mudas arbóreas plantadas recentemente.

Como equipamentos apresentava, em dezembro de 2016, academia ao ar livre e parque infantil (Figura 14 e 15).

Figura 14 - Vista parcial da Área 3 do Distrito de Floresta do Sul, contendo parque infantil.

Figura 15 - Vista parcial da Área 3 do Distrito de Floresta do Sul, contendo academia ao ar livre.

Distrito de Eneida (Figura 16)

Figura 16 - Distrito de Eneida, destacando em amarelo sua única área verde pública.

Área 1: O Distrito de Eneida conta com uma única, porém ampla e bem cuidada praça pública. Ocupa todo o quarteirão formado pelas ruas Antônio Sandoval, Pereira, Avenida Dr. Cerávolo, e Estrada Raimundo Maiolini. Obs: não Foi identificado o nome oficial da praça.

Apresenta-se gramada, com jardins bem cuidados e boa arborização. Em sua porção central está instalada a Igreja Santa Helena.

Como equipamentos conta com academia ao ar livre, bancos e mesas de cimento, banheiros públicos, e central de wi-fi. Tem também posto do correio e o velório municipal (Figuras 17 e 18).

Figura 17 - Vista parcial da Praça do Distrito de Eneida, bem arborizada e cuidada

Figura 18 - Vista parcial da Praça do Distrito de Eneida, com bancos e mesas de cimento e boa arborização

Distrito de Ameliópolis (Figura 19)

Figura 19 - Distrito de Ameliópolis, destacando em amarelo sua única área verde pública, a Praça Vereador José Del Pozzo Perez

Área 1: O Distrito de Ameliópolis conta com uma única, porém ampla praça pública denominada Praça Vereador José Del Pozzo Perez (Pioneiro).

Ocupa todo o quarteirão formado pelas ruas Rogério Názaro da Silva, Rafael da Silva Lima, Lauro dos Santos e Estrada Raimundo Maiolini. Apresenta-se gramada e bem arborizada. Em sua porção central está instalada a Capela São José.

Como equipamentos conta com academia ao ar livre, bancos e mesas de cimento, jardins, parque infantil, banheiros públicos, e central de wi-fi. Tem também instalações do posto de saúde (Figuras 20 e 21).

Figura 20 - Vista parcial da Praça Vereador José Del Pozzo Perez, com central de wi-fi.

Figura 21 - Vista parcial da Praça Vereador José Del Pozzo Perez, com parque infantil e, ao fundo, parte de sua arborização


Fragilidade, Vulnerabilidade e Risco

Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia

FRAGILIDADE AMBIENTAL EM PRESIDENTE PRUDENTE

O Mapa de Fragilidade Ambiental do município de Presidente Prudente,SP, metodologia proposta por Ross (1994), resulta da análise integrada dos produtos cartográficos referentes ao relevo (Mapa geomorfológico e Mapa clinográfico), aos solos (Esboço pedológico) e ao uso e ocupação do solo (Mapa de uso e cobertura da terra), considerando-se ainda características geológicas (grau de resistência das rochas face ao intemperismo) e climáticas (índices pluviométricos e sua distribuição ao longo do ano) da área (Figura 1).

Figura 1 - Mapa de Fragilidade Ambiental do município de Presidente Prudente, SP, Brasil.

Após a atribuição de níveis de fragilidade (que variam entre Muito Fraca, Fraca, Média, Forte e Muito Forte) para cada classe identificada em cada um dos mapas, realiza-se a análise multifatorial, através de técnicas de geoprocessamento.

Para o mapa clinográfico do município de Presidente Prudente, SP, Brasil foram atribuídos os seguintes pesos (Tabela 1):

Tabela 1 - Pesos atribuídos para as classes de declividades

Esses pesos baseiam-se em “valores críticos da geotecnia,indicativos respectivamente do vigor dos processos erosivos, dos riscos de escorregamentos/deslizamentos e inundações frequentes”. (ROSS, 1994, p. 66)

Para os elementos das formas de relevo identificados no mapa geomorfológico semidetalhado do município de Presidente Prudente, SP, Brasil, foram atribuídos os seguintes pesos (Tabela 2):

Tabela 2 – Pesos atribuídos aos elementos de formas de relevo

A atribuição de pesos para essa variável baseia-se no comportamento hidrodinâmico de cada elemento de forma de relevo, conforme descrito por Ross (1996).

Para os tipos de solos, foram atribuídos os seguintes pesos (Tabela 3):

Tabela 3 – Pesos atribuídos aos tipos de solos

A atribuição de pesos para essa variável baseia-se na erodibilidade de cada tipo de solo, conforme apontando em pesquisas do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e Instituto Agronômico do Paraná (IAP), nos trabalhos de Bertoni & Lombardi Neto (1985) e Ross (1994).

Para as classes de uso e cobertura da terra foram atribuídos os seguintes valores (Tabela 4):

Tabela 4 – Pesos atribuídos às classes de uso e cobertura da terra

A atribuição de pesos baseou-se no grau de proteção que cada cobertura oferece aos solos e baseiam-se em Marques et al (1961) e Ross (1994, 1996).

O gráfico da Figura 2, apresenta a distribuição dos níveis de fragilidade apresentados no Mapa de Fragilidade Ambiental do município de Presidente Prudente, SP, Brasil.

Figura 2 - Gráfico da distribuição dos níveis de fragilidade ambiental

Conforme se observa, predominam no município áreas com fraca e média fragilidade ambiental e, secundariamente, áreas com fragilidade Forte.

As áreas de fragilidade Muito Fraca e Fraca correspondem aos topos. Embora sejam morfologias mais aplanadas, propícias à ocupação urbana ou ao uso agrícola, e com baixo potencial de instabilidade morfodinâmica, exigem precauções em sua ocupação. Por serem áreas com tendência à infiltração, deve-se evitar sua completa impermeabilização, no caso de usos urbanos e, a supressão total de vegetação e exposição dos solos, a fim de manter as condições de infiltração e evitar o escoamento superficial, principal condicionante de deflagração dos processos erosivos.

Já as áreas de Fragilidade Média, correspondem às vertentes convexas, retilíneas e côncavas com declividades baixas, enquanto que as áreas de Fragilidade Forte, correspondem aos setores de vertentes com declividades maiores, sobretudo vertentes côncavas que, por serem áreas de convergência de fluxos hídricos, apresentam forte tendência ao escoamento superficial concentrado, o que pode desencadear processos erosivos lineares como ravinas e voçorocas.

As áreas com Fragilidade Muito Forte, correspondem às planícies de inundação ou às poucas áreas que apresentam declividade muito acentuadas (> 30%). No primeiro caso, a Fragilidade Ambiental relaciona-se à instabilidade dos terrenos e à ocorrência de inundações periódicas, além de serem áreas com restrições legais à ocupação.

VULNERABILIDADE AMBIENTAL E RISCO EM PRESIDENTE PRUDENTE

Everaldo Santos Melazo; João Osvaldo Rodrigues Nunes; Tiago Matsuo Samizava

Os primeiros moradores no Extremo Oeste do Estado de São Paulo foram os índios coroados. Posteriormente, as terras foram gradativamente ocupadas no contexto econômico da expansão cafeeira (voltada principalmente para a exportação), momento em que a ferrovia ocupou posição de destaque:

A ferrovia foi importante na economia cafeeira, sendo uma das vigas de sua infra-estrutura. Ela significou o transporte rápido, seguro e barato para o café, a comunicação fácil com os centros grandes. No caso do extremo oeste de São Paulo, somam-se outras circunstâncias: a ferrovia foi a melhor maneira para os negociantes de terras levarem seus compradores em potencial a conhecerem as glebas; favoreceu a penetração, os loteamentos, a ocupação e o aproveitamento do solo. Ao longo das ferrovias multiplicaram-se os núcleos urbanos. Permitiu também o abastecimento eficiente da rêde de manufaturas inclusive importadas. Sem a ferrovia, não teriam entrado tantos compradores, colonos em busca de fortuna, aventureiros de toda a espécie. Ela foi um fator marcante do progresso da região. (ABREU, 1972, p. 38).

Em Presidente Prudente, a estação ferroviária da Estrada de Ferro Sorocabana foi inaugurada em 1919, sobre o topo do espigão divisor de águas do rio Santo Anastácio e rio do Peixe. A expansão territorial da cidade se deu, primeiramente, nas porções mais elevadas, adjacentes ao sítio inicial (atualmente a confluência das Avenidas Brasil e Washington Luiz), direcionando-se para as vertentes até os fundos de vales (FUSHIMI, 2012).

A Oeste da ferrovia foi criado o núcleo urbano, denominado “Vila Goulart”, pelo Coronel Francisco de Paula Goulart. Paralelamente, a Leste da linha férrea, foi desenvolvida a “Vila Marcondes”, pelo Coronel José Soares Marcondes.

Conforme já destacado na descrição dos aspectos do espaço urbano, apesar de ambos serem os principais responsáveis pelos dois núcleos originários da cidade de Presidente Prudente-SP, apresentavam características distintas, tanto referente ao processo de parcelamento formas de comercialização dos lotes em suas respectivas áreas, quanto no aspecto geomorfológico das próprias áreas (Figura 1).

Figura 1 - Expansão da malha urbana de Presidente Prudente-SP sobre o relevo (1917 – após 2000).

A colonização Goulart possuía caráter pessoal, individual, sem planejamento nem capital:

O método de vendas não obedecia a nenhuma racionalização. Não havia levantamento prévio da área e delimitação certa. Goulart usava a forma de “agregação”. Um interessado recebia autorização sua e localizava-se num determinado local, abrindo a mata e iniciando a cultura. Pagava como e quando podia. Mais tarde, passava-se a escritura. (ABREU, 1972, p. 61-62).

Na colonização Marcondes, o empreendimento desempenhava função empresarial com maior suporte financeiro e investimento em propagandas para atrair negócios e compradores.

O comprador recebia um contrato de compromisso de compra e venda e quando saldava tôda sua dívida, recebia a escritura definitiva. Todos a receberam e nunca houve reclamação quanto às dimensões dos lotes que eram muito bem medidos (ABREU, 1972, p. 69-70). 73

A topografia a Oeste é mais suave comparada a Leste, com colinas amplas e topos suavemente ondulados:

Quanto ao setor oeste dominam as colinas amplas de topos suavemente ondulados, com declividade que variam entre 0 a 10%. Predominam nestas áreas os Latossolos Vermelhos profundos e bem drenados. Ocorre também uma predominância de interflúvios sem orientação preferencial, com topos angulosos e achatados, e vertentes com perfis retilíneos. A drenagem é de média a alta densidade, com padrão dendrítico e vales fechados. (NUNES, 2007, p. 32).

No setor Leste, a morfologia do relevo é mais acentuada, caracterizada por desnivelamentos fortes e altas declividades:

As áreas de declividade acentuada (de 10 a <20%), que na sua maioria localizam-se no setor leste, apresentam vários sistemas de embaciamento de águas, com morfologia de cabeceiras de drenagem em anfiteatros, cujo sistema de drenagem, nas áreas em que afloram os arenitos da Formação Adamantina, é dendrítico. (NUNES, 2007, p. 26).

Entre 1924 a 1940, aparentemente não houve significativo crescimento territorial da cidade. Contudo, esse ínterim correspondeu ao período de expansão sem planejamento e o de regularização das propriedades, acompanhando a Estrada de Ferro Sorocabana. A partir de 1939, a malha urbana de Presidente Prudente-SP foi ampliada em direção a Oeste da ferrovia e restringiu-se à Sudoeste pelo córrego do Veado.

Especialmente a partir da década de 1970, a expansão territorial urbana em Presidente Prudente-SP cresceu de modo significativo e sem precedentes, sobretudo nos terrenos menos declivosos a Oeste. A presença de estabelecimentos industriais além do prolongamento da Avenida Manoel Goulart (como o Frigorífico Bordon e os Curtumes Crepaldi, Scarbon e Couco), encaminhou o avanço urbano neste setor. A produção de loteamentos ganhou destaque nessa época, a maioria implantada em descontínuo à malha urbana. A título de exemplo, têm-se o Parque Alexandrina e o Parque Watal Ishibashi na zona Norte e o Jardim Bela Vista e o Jardim Jequitibás a Oeste (FUSHIMI, 2012).

Nos anos 1980, o aumento de loteamentos permaneceu, acentuando-se nas áreas periféricas, com exceção do Sul da cidade, ao longo da rodovia Raposo Tavares (SP-270), em virtude da tendência de concentração de estabelecimentos comerciais e industriais (SPOSITO, 1990). Após o ano de 2000, novos loteamentos foram criados, com destaque para o Jardim Morada do Sol, o Residencial Maré Mansa, e os Residenciais Tapajós, Panorama, Bela Vista, Cremonezi e João Domingues.

A respeito dos Distritos urbanos de Montalvão, Floresta do Sul, Eneida e Ameliópolis, localizados a 12 km, 25 km, 30 km e 47 km da cidade de Presidente Prudente-SP, respectivamente, existem poucas referências relacionadas aos aspectos históricos e registros de informações econômicas, sociais e ambientais.

A partir do histórico de produção e ocupação do espaço geográfico do município de Presidente Prudente, com especial atenção para a área urbana, foi possivel identificar uma série de alterações na morfologia do sítio urbano, decorrente da ação dos diversos agentes sociais produtores do espaço urbano. Estas modificações têm ocasionado vários riscos ambientais à sociedade, conforme o grau de vulnerabilidade ambiental das áreas. Neste aspecto, o Mapa de vulnerabilidade ambiental a risco do perímetro urbano de Presidente Prudente - SP, apresenta cinco níveis que oscilam de 1 (muito baixa vulnerabilidade) a 5 (vulnerabilidade muito alta), que servirão de importante instrumento de comunicação de riscos para população da cidade de Presidente Prudente, SP, Brasil.

O mapa de vulnerabilidade ambiental a riscos na área urbana de Presidente Prudente,SP

A elaboração do mapa de vulnerabilidade ambiental a riscos, deveu-se por força de demanda da Secretaria de Assistência Social da Prefeitura Municipal de Presidente Prudente, onde foi celebrado o convênio 252/2008, na data de 26 de novembro de 2008, entre a Universidade Estadual Paulista-Presidente Prudente (UNESP) e a Prefeitura Municípal de Presidente Prudente-SP, com o objetivo de produzir resultados técnico-científicos de utilidade para a comunidade prudentina, principalmente com enfoque para auxiliar as políticas sociais e ambientais.

O mapa foi elaboração em um ambiente de Sistema Geográfico de Informações (SIG), conforme a Figura 2, utilizando o método AHP - Análise multicriterial (fuzzy ponderado) em que, cada variável é pontuada de acordo com uma escala pré-definida, de 1 a 9, sendo que o valor 1 corresponde importância idêntica e, o valor 9 é atribuído a um fator infinitamente mais importante.

Figura 2 - Esboço da metodologia de elaboração do mapa de vulnerabilidade ambiental a riscos do perímetro urbano de Presidente Prudente-SP em ambiente SIG.

Com base nas cartas plano-altimétricas da área urbana de Presidente Prudente, foram elaborados vários mapas com elementos geográficos importantes para a definição de vulnerabilidades ambientais e riscos (SAMIZAVA et al, 2006). Os mapas definidos como mais importantes para essa situação específica, foram:

  • cobertura vegetal, incluso áreas com solos expostos (sem cobertura);

  • classes de declividade (grau de inclinação das vertentes);

  • densidade de área construída (índice de áreas construídas em relação ao total);

  • densidade habitacional (número de habitantes por unidade de área);

  • drenagem urbana (linhas de escoamento das águas e córregos);

  • geomorfologia (características morfológicas dos topos e vertentes);

  • índice de imóveis em condições precárias.

Na sequência foram estabelecidas normas de padronização das informações, determinadas, basicamente, pela escala de trabalho do sistema geográfico. Juntamente, foram definidos os pesos de cada mapa, ou plano de informação, de acordo com as discussões levantadas pelos profissionais componentes da equipe.

Com base na elaboração de cada plano de informação e na atribuição dos respectivos pesos, foram feitas combinações algébricas entre os planos de informações que resultou no presente mapa de vulnerabilidade ambiental a riscos na área urbana de Presidente Prudente,SP (Figura 3).

Figura 3 - mapa de vulnerabilidade ambiental a riscos na área urbana de Presidente Prudente,SP

De maneira geral identificou-se que:

  1. As áreas de riscos menores (1-2) estão nos topos das colinas aplanadas, com declividades baixas e maior infiltração de água no solo;

  2. As áreas de risco médios (2-3) estão relacionados as vertentes concavas, concentradores de fluxo de escoamento dágua, especialmente nas áreas de cabeceiras de drenagem com morfologia de anfiteatro. Estas áreas quando ocupadas de forma irregular, nos períodos chuvosos, podem ocorrer problemas de queda de muros de arrimo;

  3. As áreas de riscos maiores (4-6) localizam-se nas planície aluviais, cujos córregos foram canalizados e tamponados. Nestas áreas, nos períodos de chuvas forte (janeiro e fevereiro), ocasionadas por eventos meteorológicos extremos e concentrados são frequentes os problemas de enchentes, como no caso do Córrego do Veado localizado no Parque do Povo.

As consequência disto são interdições de estabelecimentos comerciais e de moradias, especialmente em áreas carentes da cidade, ocasionando o desabrigo de famílias de baixa renda.

  Referências Bibliográficas

FRAGILIDADE

FUSHIMI, M. & NUNES, J. O. R. Principais classes de solos no município de Presidente Prudente – SP: Identificação e caracterização. Boletim Goiano de Geografia, Volume 32, 2015, p. 45-58.

IPT - INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS DO ESTADO DE SÃO PAULO. Mapa Geológico do Estado de São Paulo. Escala 1:500.000. IPT, 2 v. (Monografias, 6; Publicação) São Paulo, 1981.

MARQUES, J. Q. de A.; BERTONI, J. & BARRETO, G. B. As perdas por erosão no estado de São Paulo. Bragantia 20(47), Campinas, 1961, 1143-1181p.

ROSS, J. L. S. Geomorfologia aplicada aos EIAs-RIMAs. In: GUERRA, A. J. T. & CUNHA, S. B. da (org.). Geomorfologia e meio ambiente. Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 1996. p 291 -336

ROSS, J. L. S. Análises e sínteses na abordagem geográfica da pesquisa para o planejamento ambiental. Revista do Departamento de Geografia nº.9. FFLCH-USP: São Paulo, 1995, 65-75p.

ROSS, J. L. S. Análise empírica da fragilidade dos ambientes naturais e antropizados. Revista do Departamento de Geografia nº.8. FFLCH-USP: São Paulo, 1994.

VULNERABILIDADE E RISCOS

Abreu, D.S. Formação histórica de uma cidade pioneira paulista: Presidente Prudente. Presidente Prudente: Faculdade de Filosofia Ciências e Letras.1972.

Fushimi, M. Morfodinâmica da paisagem das áreas rurais do município de Presidente Prudente-SP. 139 p. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2012.

Pedro Miyazaki, L. C. Dinâmicas de apropriação e ocupação em diferentes formas de relevo: análise dos impactos e da vulnerabilidade nas cidades de Presidente Prudente/SP e Marília/SP. 265 p. Tese de Doutorado em Geografia – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2014.

Samizava, T. M. Utilização de técnicas de geoprocessamento para seleção de áreas potenciais para instalação de aterro sanitário no município de Presidente Prudente – SP. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Engenharia Ambiental) – Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2006.

Sposito, E. S. Produção e a apropriação da renda fundiária urbana em Presidente Prudente. São Paulo. (Tese de Doutorado em Geografia) – Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 1990.

Veyret, Y. Os riscos: o homem como agressor e vítima do meio ambiente. São Paulo: Contexto. 2007.

GLOSSÁRIO

RISCO: é um termo cujo significado está relacionado tanto a um perigo possível de acontecer, quanto a sua percepção, além de indicar uma situação percebida como perigosa, ou cujas implicações podem ser notadas (VEYRET, 2007).

PERIGO: refere-se a uma “circunstância que prenuncia um mal para alguém ou alguma coisa, e aquilo que provoca tal circunstância, o risco, ou estado ou situação que inspira cuidado, gravidade” (VEYRET, 2007, p. 24). São as situações de perigo que chamam a atenção de muitos pesquisadores, principalmente quando põe em risco um grupo social.

VULNERABILIDADE: o mesmo envolve aspectos físicos, ambientais, técnicos, além de dados econômicos, sociais e políticos e até mesmo psicológicos. Ela não pode ser definida a partir de simples índices científicos ou técnicos. Por exemplo, no caso das inundações, o limite máximo atingido pelas águas, supondo que seja cientificamente aceitável, não é suficiente para distinguir a vulnerabilidade desigual dos lugares. Muitos outros aspectos devem ser incorporados a análise do grau de vulnerabilidade, incorporando assim componentes ou variáveis que possam proporcionar esta avaliação (VEYRET, 2007)


Derivações Ambientais

Ilhas de Calor em Presidente Prudente

Margarete C. Costa Trindade Amorim

O clima de Presidente Prudente caracteriza-se pela tropicalidade, com um período quente e chuvoso entre outubro e março e, outro mais ameno e seco, entre abril e setembro. Com população estimada de 223.749 habitantes (IBGE, 2016), os eventos de temperaturas elevadas que provocam muito desconforto para a população são frequentes e, dependendo das características intraurbanas, esses são intensificados pela geração das ilhas de calor.

As ilhas de calor atmosféricas são bolsões de ar quente que se formam sobre os ambientes urbanos e decorrem das alterações no balanço de energia como resultado das transformações na superfície e das atividades humanas. Entretanto, as ilhas de calor não se restringem às diferenças de temperatura entre o urbano e o rural, mas também decorrem das diferenças intraurbanas, oriundas dos diferentes usos e coberturas da terra, da vegetação, do relevo, da geometria e densidade de edificações, dos tipos de materiais construtivos e do fluxo de calor gerado pelas atividades humanas.

Como destacou Oke (1978), a característica mais significante da ilha de calor atmosférica é sua intensidade, entendida como a diferença entre o máximo da temperatura urbana e o mínimo da temperatura rural.

Nesta mesma perspectiva, Fernández García (1996) definiu a intensidade e a magnitude das ilhas de calor considerando-se as diferenças térmicas entre o rural e o urbano registradas por meio dos seguintes parâmetros: ilha de calor de fraca magnitude, quando as diferenças entre os pontos mais quentes e mais frios variam de 0ºC a 2ºC; de média magnitude, quando variam de 2ºC a 4ºC; de forte magnitude quando variam de 4ºC a 6ºC; e de muito forte quando superiores a 6ºC.

A literatura aponta três tipos de ilhas de calor urbanas em função da camada onde são encontradas:

1 – a ilha de calor superficial diagnosticada por meio do sensoriamento remoto, que decorre das diferenças de temperaturas entre os diferentes alvos existentes na superfície;

2 – a ilha de calor atmosférica inferior, que Oke (1978) denominou “urban canopy layer”, compreendida entre o nível do solo e o nível médio dos telhados; e 3 - a ilha de calor da atmosfera urbana superior, denominada, segundo o mesmo autor, por “urban boundary layer”.

O estresse térmico que pode ser gerado naturalmente pelas características do clima regional e é intensificado pela presença das ilhas de calor, não causa apenas desconforto para as pessoas, mas também gera ambientes insalubres que podem afetar a saúde, particularmente dos grupos sociais mais susceptíveis, tais como os idosos e as crianças.

Neste trabalho pretende-se mostrar exemplos da intensidade das ilhas de calor da atmosfera inferior e das ilhas de calor superficiais, pois há mais de uma década estudos têm sido realizados em Presidente Prudente (AMORIM, 2000; AMORIM, 2005; AMORIM, 2010; AMORIM et al., 2009; CARDOSO e AMORIM, 2014; AMORIM et al., 2015; CARDOSO, 2015).

Para o diagnóstico da intensidade das ilhas de calor atmosféricas foram realizados registros das temperaturas do ar intraurbana e do entorno rural próximo à malha urbana, no período noturno (21h) em Presidente Prudente, por meio de transectos móveis (medidas itinerantes), utilizando-se de sensores digitais presos em hastes de madeira com 1,5m de comprimento, acoplados na lateral de dois veículos que saíram simultaneamente da periferia (rural), passando pelo centro, chegando ao extremo oposto da malha urbana (Figura 1). As medições foram efetuadas entre 21h e 21h50, por se tratar do horário mais adequado, uma vez que as temperaturas não experimentam mudanças rápidas. A coleta de dados com veículos requer que o tempo gasto entre a medida do ponto inicial e do ponto final do itinerário não ultrapasse uma hora, com velocidade que deve variar entre 20 e 30Km/h.

Figura 1 - Percursos realizados para os registros das temperaturas em Presidente Prudente, SP.

Os levantamentos de campo nos transectos móveis foram realizados em episódios que apresentaram condições sinóticas propícias à formação das ilhas de calor, com baixa velocidade do vento e sem precipitação, pois essas condições homogeneízam a atmosfera e anulam as ilhas de calor.

Em diversos registros da temperatura por meio de transectos móveis, foram diagnosticadas ilhas de calor de forte magnitude (AMORIM, 2005; AMORIM 2010; AMORIM et al., 2015; CARDOSO, 2015), com diferenças entre o ponto mais quente e o mais frio acima de 7ºC.

Na animação a seguir, Figura 2, apresenta-se um desses exemplos (adaptado de AMORIM et al., 2015), e nele pode-se verificar que a intensidade da ilha de calor foi de 9ºC, sendo esta diretamente relacionada à densidades de construções e de cobertura vegetal arbórea (Figura 3) e ao relevo (Figura 4). Na Figura 2, estão apresentados os resultados das diferenças da temperatura do ar, portanto, da intensidade das ilhas de calor, registradas no dia 30/07/2014, às 21h, sob a atuação de uma massa de ar polar, com valores absolutos que variaram entre 8ºC e 18ºC.

O núcleo da ilha de calor urbana ocorreu no centro comercial densamente edificado e pouco arborizado, mas não se restringiu a ele e se prolongou ao norte e ao sul, em áreas densamente construídas nos bairros considerados residenciais.

Nos bairros mais afastados do centro, densamente construídos e com baixa quantidade de cobertura vegetal arbórea as intensidades foram de 6ºC a 8ºC.

Nos bairros também periféricos, mas com menor densidade de construções e com cobertura vegetal arbórea, as intensidades ficaram entre 5ºC e 6ºC.

No entorno rural com predomínio de pastagens as intensidades variaram entre 2ºC e 5ºC. Nos fundos de vales e nas áreas com densa cobertura vegetal arbórea foram registradas as menores intensidades, com máximo de 2ºC.

Nos condomínios fechados de alto padrão construtivo, com terrenos grandes e arborizados e gramados, localizados ao sul da malha urbana, as intensidades das ilhas de calor foram baixas e equivalentes ao ambiente rural com pastagens (entre 2ºC e 5ºC).

Nos bairros populares dos setores norte e oeste da malha urbana, com carência de cobertura vegetal arbórea e terrenos pequenos e densamente construídos tiveram intensidades de 6º e 8ºC.

Veja a animação com as figuras 2, 3 e 4.

youtube ("Fonte: Figura 2- AMORIM, 2016; adaptado de AMORIM et al., 2015. Figura 3- ttp://earthexplorer.usgs.gov/. Elaboração: AMORIM, 2016; adaptado de AMORIM et al., 2015. Figura 4- http://www.webmapit.com.br/inpe/topodata. Elaboração: AMORIM, 2016; adaptado de AMORIM et al., 2015")

O relevo tem um papel primordial na distribuição das intensidades das ilhas de calor, particularmente nos dias de atuação de uma massa polar, conforme exemplo mostrado na Figura 2. Nos fundos de vale, principalmente naqueles cobertos com vegetação arbórea, foram registradas as menores temperaturas.

Houve uma relação inversa de diminuição da intensidade da temperatura com a altitude, ou seja, as menores intensidades das ilhas de calor foram registradas nos fundos de vales, conforme se pode verificar, comparando-se as Figura 2 e 4. Entretanto, o efeito dos fundos de vale na diminuição das intensidades das ilhas de calor foi minimizado naqueles que apresentaram alta densidade de construções e pequena quantidade de cobertura vegetal arbórea.

A existência das ilhas de calor na atmosfera inferior decorreu três aspectos significativos:

1 – a atuação de um sistema atmosférico estável (massa de ar polar, com temperaturas absolutas que variaram entre 8ºC e 18ºC), sem vento e sem precipitação;

2 – as diferenças na densidade de construções e de cobertura vegetal (arbórea e rasteira) (Figura 3) e às características do relevo (Figura 4).

Com relação às ilhas de calor urbanas superficiais, o sensoriamento remoto é um importante instrumento para seus diagnósticos. Os satélites Landsat 5, 7 e mais recentemente o 8, com os sensores do infravermelho termal (banda 6 do Landsat 5 e 7 e bandas 10 e 11 do Landsat 8) permitem a mensuração das temperaturas aparentes da superfície, podendo-se diagnosticar as ilhas de calor superficiais (VOOGT e OKE, 2003), na medida em que possibilita a compreensão da distribuição das fontes de calor dentro de uma área urbana e as diferenças com as áreas rurais (AMORIM et al., 2009; MENDONÇA; DUBREUIL, 2005).

As temperaturas dos alvos fornecidas pelos satélites durante o dia, pois o Landsat captura as imagens em Presidente Prudente por volta de 10h22, a cada 16 dias, apresentam valores superiores às temperaturas do ar (WENG, 2003). Deste modo, as imagens de satélite do infravermelho termal oferecem o desenho da temperatura local, sendo um importante instrumento para a comparação entre o rural e o urbano.

Em Presidente Prudente, também se realizado estudos sobre as ilhas de calor superficiais (AMORIM et al., 2009; AMORIM e MONTEIRO, 2011; CARDOSO e AMORIM, 2014).

Aqui serão apresentados exemplos da intensidade das ilhas de calor de superfície na estação seca e na chuvosa, diagnosticadas a partir de imagens termais (banda 10) do satélite Landsat 8, com resolução espectral de 10.6 – 11.19 μm e resolução espacial de 100 metros, mas tratadas e disponibilizadas com pixel de 30 metros pela USGS (United States Geological Survey).

Os procedimentos para a obtenção das temperaturas em grau Celsius (°C) nas imagens de satélite foram realizados no aplicativo IDRISI, com a utilização de parâmetros fixos de conversão de níveis de cinza da imagem (NC) para radiância, depois para temperaturas Kelvin e finalmente para graus Celsius. Tais procedimentos podem ser obtidos no sítio https://landsat.usgs.gov/Landsat8_Using_Product.php (acesso 14/02/2016).

Nos dias representativos do período chuvoso (30/10/2015) como no seco (24/08/2014), havia estabilidade atmosférica (ausência de nuvens, de precipitação e ventos fracos). A temperatura do ar máxima no dia 30/10 foi de 33,5ºC e a mínima de 19,5ºC. No dia 24/08, a máxima foi de 34,2ºC e a mínima de 20,9ºC.

No que se refere aos totais de precipitação nos períodos que antecederam a tomada das imagens, verificou-se que no período seco, no mês de agosto de 2014, foi registrado o total de 16mm, sendo este valor abaixo da média do período de 1961 a 2015 que foi de 36,1mm.

No mês de outubro de 2015, foi registrado o total de 242mm, decorrente da penetração de frentes, sendo este valor muito acima da média do período de 1961 a 2015 que foi de 124,7mm. Houve o registro de precipitação em 10 dias distribuídos ao longo deste mês, proporcionando a manutenção de umidade no solo, particularmente no entorno rural próximo.

Na animação a seguir, Figura 5, há o exemplo das diferenças das temperaturas dos alvos no dia representativo do período chuvoso e, na Figura 6, do dia representativo do período seco. Cabe destacar que tais diferenças se referem a menor temperatura registrada em cada cena, que foi considerada como sendo “0” oC. Comparando-se os alvos urbanos e rurais foi diagnosticada, na imagem do período chuvoso, ilha de calor de 9ºC de intensidade, sendo os bairros densamente construídos e com coberturas de fibrocimento os mais quentes em relação às áreas com densa cobertura arbórea. Em termos absolutos, a menor temperatura do alvo registrada neste dia foi de 26,67 ºC, nas áreas com fragmentos de vegetação arbórea, predominantemente nos fundos de vale (sendo este valor considerado “0” oC).

youtube ("Fonte: Presidente Prudente: Carta das diferenças das temperaturas das superfícies gerada a partir da imagem do infravermelho termal (banda 10) do Landsat 8 de 30/10/2015 e 24/08/2014. http://earthexplorer.usgs.gov. Organização: AMORIM (2016)")

Na imagem representativa do período seco, Figura 6, a menor temperatura na cena foi de 24,57 ºC registrada em superfície líquida localizada na área noroeste na divisa do perímetro urbano (considerada como “0” oC). Foi utilizada a mesma escala de cores para se representar as diferenças nas duas cenas e assim se verificar os contrastes das temperaturas dos alvos entre o urbano e o rural na imagem do período chuvoso e certa homogeneização das mesmas no período seco. No caso da estação seca, é muito difícil ver a diferença entre a zona rural e a zona urbana. Os contrastes maiores de temperaturas estão entre as áreas com densa cobertura arbórea e os outros alvos, seja na área rural ou na intraurbana.

No período chuvoso, a vegetação rasteira (pastagem), predomina no entorno rural de Presidente Prudente. Há também alguns fragmentos de vegetação arbórea, particularmente nos fundos de vale, que possuem folhas bem desenvolvidas e possibilitam que o ambiente rural apresente temperaturas dos alvos menores do que as áreas construídas e com solo exposto. A superfície coberta por vegetação tem maior capacidade térmica e precisa de maior quantidade de energia para que sua temperatura aumente 1ºC quando comparados com os materiais presentes no ambiente urbano (JENSEN, 2009).

Nos períodos de estiagem, além da diminuição da umidade do solo, há o declínio da vegetação e, consequentemente, da evaporação e da evapotranspiração. Com o solo exposto, a temperatura da superfície tende a ser mais elevada e, em alguns casos, maiores do que os ambientes construídos (Figura 5). O albedo é reduzido em superfícies de solo exposto e retêm mais calor. Apenas nas áreas com cobertura vegetal arbórea as temperaturas são menores.

Deste modo, os mapas mostraram que as ilhas de calor superficiais nos ambientes urbanos, não possuem altas magnitudes durante todos os períodos do ano. As ilhas de calor superficiais urbanas são mais evidentes durante o período chuvoso que resultam em presença de vegetação mais vigorosa nas áreas rurais. No período seco, com a diminuição da massa vegetal a partir da perda de parte das folhas da cobertura arbórea e exposição do solo devido à diminuição da cobertura vegetal rasteira, as temperaturas praticamente se igualam nos alvos rurais e urbanos.

Assim, por meio dos resultados apresentados neste texto, verifica-se que Presidente Prudente, mesmo sendo uma cidade de médio porte, já apresenta especificidades na superfície capazes de gerar ilhas de calor atmosféricas e superficiais com intensidades que se assemelham aos grandes centros urbanos.

Algumas medidas podem contribuir amenizar a intensidade das ilhas de calor e dentre elas destacam-se: o plantio de árvores nas áreas verdes, nas calçadas e no interior dos terrenos; a utilização de materiais construtivos capazes de armazenar menos calor; a não aprovação de loteamentos com terrenos muito pequenos para se evitar que toda a área seja impermeabilizada; a não canalização fechada de rios e córregos que passam pela área urbana.

  Referências Bibliográficas

AMORIM, M. C. C. T. O clima urbano de Presidente Prudente/SP. 2000. 374f. Tese (Doutorado em Geografia) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.

AMORIM, M. C. C. T. Intensidade e forma da ilha de calor urbana em Presidente Prudente/SP. Geosul (UFSC), v. 20, p. 65-82, 2005.

AMORIM, M. C. C. T. Climatologia e gestão do espaço urbano. Mercator, número especial, p. 71-90, dez. 2010.

AMORIM, M. C. C. T.; DUBREUIL, V.; CARDOSO, R. S. Modelagem espacial da ilha de calor urbana em Presidente Prudente (SP) Brasil. Rev. Brasileira de Climatologia, v. 16, p. 29-45, 2015.

AMORIM, M. C. C. T.; DUBREUIL, V.; QUENOL, H.; SANT’ANNA, J. L. Características das ilhas de calor em cidades de porte médio: exemplos de Presidente Prudente (Brasil) e Rennes (França). Confins [Online], v. 7. p. 1-16, 2009. Disponível em: http://confins.revues.org/index6070.html. Acesso em: 06 set. 2013.

AMORIM, M. C. C. T.; MONTEIRO, A. As temperaturas intraurbanas: exemplos do Brasil e de Portugal. Confins [Online], v. 13. p. 1-18, 2011. Disponível em: https://confins.revues.org/7284?lang=pt. Acesso em: 20 mar. 2013.

CARDOSO, R. S. Classificação de potenciais unidades climáticas em Presidente Prudente-SP. 2015. 137f. Dissertação (Mestrado em Geografia) - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Presidente Prudente.

CARDOSO, R. S.; Amorim, M. C. C. T. Características do clima urbano em Presidente Prudente/SP a partir de dados de temperatura e umidade relativa do ar e técnicas de sensoriamento remoto. Revista do Departamento de Geografia 28, p. 39-64, 2014.

FERNÁNDEZ GARCÍA, F. Manual de climatologia aplicada: clima, medio ambiente y planificación. Madrid: Editorial síntesis, S.A., 1996. 285p.

MENDONCA F.; DUBREUIL V. Termografia de superfície e temperatura do ar na RMC (Região Metropolitana de Curitiba - PR). Revista RA'E GA - O espaço geográfico em análise, n.9, p.25-35, 2005.

WENG, Q. Fractal analysis of satellite-detected urban heat island effect. Photogrammetric engineering & remote sensing, v. 69, n. 5, p. 555-566, May 2003.

OKE, T. R. Boundary Layer Climates. London: Methuem & Ltd. A. Halsted Press Book, John Wiley & Sons, New York, 1978. 372p.

GLOSSÁRIO

ESTRESSE TÉRMICO: perturbações provocadas nos indivíduos (desconforto, inquietação, perda de concentração, sonolência, aumento do suor) decorrentes das condições atmosféricas consideradas desconfortáveis para os organismos, tais como excesso ou falta de calor (estresse para o calor ou para o frio), umidade e vento.

TRANSECTO MÓVEL: técnica pela qual se faz o registro dos elementos do clima (principalmente temperatura e umidade do ar) com sensores adequados, em um percurso previamente definido que pode ser realizado de automóvel, de bicicleta ou a pé. Tal técnica visa registrar os elementos do clima em áreas com diferentes tipos de uso e ocupação da terra e características do relevo, em intervalo de tempo que não ultrapasse uma hora, normalmente realizados no período noturno, quando a atmosfera não apresenta mudanças naturais rápidas de seus elementos.


Derivações Ambientais

Transformações no Relevo: O que são os depósitos tecnogênicos?

Érika Cristina Nesta Silva; João Osvaldo Rodrigues Nunes

São considerados como depósitos tecnogênicos os depósitos oriundos de alguma ação da sociedade. Estas deposições são cada vez mais comuns no meio urbano e rural, sendo encontrados em substituição ou sobreposição aos solos. Em Presidente Prudente estas deposições têm sido estudadas, sempre correlacionado os processos naturais e sociais responsáveis por suas formações.

Quando o ser humano deposita resíduos sólidos urbanos e sedimentos em forma de lixão, aterros controlados ou sanitários, ou mesmo em outros locais, como nas margens de cursos d’água, ocorre a ação direta de formação de depósito tecnogênico. Ou seja, há a intenção de deposição dos materiais em determinadas áreas e esta é concretizada por ação direta, através de maquinários, carriolas, etc.

No trabalho de Silva (2009), foram registradas algumas deposições diretas relacionadas a resíduos sólidos domésticos e resquícios de materiais de construção, juntamente com sedimentos oriundos provavelmente dos processos de terraplanagem. Entre os locais abordados na referida pesquisa estão um fundo de vale localizado no Parque Alexandrina (Figura 1), cuja deposição dos resíduos sólidos ocorreu em 1987 (MAZZINI, 1997), e uma deposição recente, num fundo de vale no Parque Residencial Francisco Belo Galindo (Figura 2), apresentando sedimentos e materiais de construção.

Figura 1 - Deposição de resíduos sólidos no fundo de vale de um afluente do Córrego da Cascata no Parque Alexandrina

Figura 2 - Deposição direta de materiais manufaturados e sedimentos no fundo de vale de um afluente do Córrego da Cascata no Parque Residencial Francisco Belo Galindo

Os materiais encontrados nas deposições tecnogênicas são passíveis de classificação. Uma das mais utilizadas é a de Peloggia (1996), baseada em Fanning e Fanning (1989), a qual apresenta os seguintes materiais tecnogênicos:

1) Materiais “úrbicos” (do inglês urbic): tratam-se de detritos urbanos, materiais terrosos que contêm artefatos manufaturados pelo homem moderno, freqüentemente em fragmentos, como tijolos, vidro, concreto, asfalto, pregos, plástico, metais diversos, pedra britada, cinzas e outros, provenientes por exemplo de detritos de demolição de edifícios; 2) Materiais “gárbicos” (do inglês garbage, lixo): tratam-se de depósitos de material detrítico com lixo orgânico, de origem humana e que, apesar de conterem artefatos em quantidades muito menores que a dos materiais úrbicos, são suficientemente ricos em matéria orgânica para gerar metano em condições anaeróbicas. 3) Materiais “espólicos” (do inglês spoil, despojo): materiais terrosos escavados e redepositados por operações de terraplanagem em minas a céu aberto, rodovias ou outras obras civis. Contêm muito pouca quantidade de artefatos, sendo identificados pela expressão geomórfica “não natural”, ou ainda por peculiaridades texturais e estruturais em seu perfil. 4) Materiais “dragados”: materiais terrosos provenientes da dragagem de cursos d’água e comumente depositados em diques em cotas topográficas superiores às da planície aluvial (PELOGGIA, 1996, p.60-61).

Em Presidente Prudente, são encontrados, especialmente nos fundos de vales, os materiais úrbicos, gárbicos e espólicos. Os materiais úrbicos apresentam, em geral, fragmentos de materiais construtivos utilizados nas adjacências e transportados por meio das águas das chuvas ou mesmo depositados de forma direta em fundos de vales. No trabalho de Silva (2012), um exemplo deste tipo de deposição foi a estudada no Parque Alexandrina, ao lado da rua Josué Teixeira Coelho, cujo depósito apresentava-se compactado provavelmente pela passagem de maquinários e com presença de fragmentos de telha de fibrocimento, material amplamente utilizado nos telhados de casas de conjuntos habitacionais (Figura 3 e 4).

Figura 3 - Local de reconhecimento e coleta de amostra de depósito tecnogênico no Parque Alexandrina.

Figura 4 - Depósito tecnogênico estudado no Parque Alexandrina, com destaque para o fragmento de telha de fibrocimento

Quanto aos materiais gárbicos, são exemplificados pela deposição de resíduos sólidos domésticos, como demonstrado na Figura 1. Os materiais espólicos, com os sedimentos oriundos dos processos de terraplanagem e mesmo de áreas de empréstimo de solos que são utilizados em obras, foram identificados por Silva (2012) num fundo de vale no Residencial Maré Mansa. Neste local, o talude adjacente ao Córrego da Malandra foi reconstituído com solos de áreas de empréstimo, possibilitando o plantio de mudas e a recuperação da Área de Preservação Permanente (Figura 5).

Figura 5: Área de Preservação Permanente na qual foi coletada amostra de depósito tecnogênico com presença de material espólico.

Os materiais tecnogênicos podem ser depositados por meio de ação indireta da sociedade, geralmente relacionadas a alterações da magnitude e intensidade de processos naturais. A intensificação de processos erosivos por meio da retirada da cobertura vegetal e a consequente deposição de maior volume de sedimentos nas margens e taludes de cursos d’água é exemplo de ação indireta que ocasiona deposições tecnogênicas na cidade de Presidente Prudente, em conjunto com processos de impermeabilizações.

Neste último caso, ocorre a intensificação do fluxo superficial e o consequente aumento do aporte de materiais carreados para as áreas de fundo de vale. O maior volume e velocidade das águas superficiais direcionadas para os fundos de vale, em resposta às impermeabilizações, intensificam processos erosivos nestas áreas receptoras, cujos sedimentos resultantes alteram a dinâmica fluvial e formam depósitos tecnogênicos a jusante.

O fundo de vale localizado no Conjunto Habitacional Augusto de Paula (SILVA, 2009, 2016) apresenta formação de depósitos tecnogênicos originados por ação indireta, através dos seguintes processos:

1) retirada da cobertura vegetal e intensificação no aporte de sedimentos;

2) carreamento de fragmentos de materiais úrbicos e gárbicos contemporâneos à consolidação do bairro;

3) intensificação de processos erosivos na própria deposição tecnogênica, sendo esta bastante arenosa.

A figura 6 demonstra uma feição erosiva bastante intensificada na área desta deposição tecnogênica.

Figura 6: Feição erosiva localizada numa área de planície do Conjunto Habitacional Augusto de Paula.

Outro exemplo deste tipo de deposição, relacionada aos processos de uso e ocupação, foi a reconhecida por Silva (2012) no fundo de vale de um afluente do Córrego do Gramado, próximo ao Jardim Itapura II, no setor leste da cidade (Figura 7). A deposição localiza-se num setor mais baixo do relevo, ou seja, numa cota altimétrica mais baixa, em relação a vários bairros antigos da cidade, como a Vila Marcondes.

Figura 7 - Vista parcial do setor leste de Presidente Prudente. Em destaque, as áreas das canalizações existentes nesse trecho e o ponto de reconhecimento de formação de depósito tecnogênico num fundo de vale

O ponto de reconhecimento de formação tecnogênica localiza-se no final da Avenida Tancredo Neves. Esta avenida foi implantada num fundo de vale cujo curso d’água encontra-se canalizado de forma fechada, e recebe grande parte do volume das águas pluviais advindas de diferentes bairros a montante. Portanto, as alterações ocorridas historicamente nesses bairros, como retirada da cobertura vegetal e alterações no terreno para implantação dos loteamentos, bem como a deposição de resíduos sólidos em diversos locais nesse setor, conforme relatado por Mazzini (1997) possuem relação com a formação tecnogênica estudada devido ao direcionamento do fluxo das águas pluviais e o consequente transporte de sedimentos e resíduos sólidos.

No entanto, no mesmo depósito tecnogênico, nas camadas próximas à superfície, foram reconhecidos indicativos de ação direta: deposição e queima de resíduos sólidos (Figura 8).

Figura 8: Depósito tecnogênico, com destaque para a camada com resquícios de queimada

Não somente as deposições, mas também as feições de relevo resultantes de ações da sociedade são classificadas como tecnogênicas.

As formas tecnogênicas são relacionadas a processos degradativos, quando ocorrem retiradas de materiais como solos e rochas, e agradativos, nos casos de alterações no relevo ocasionadas por acúmulo de material, ou seja, deposições tecnogênicas.

Em diversos locais na cidade de Presidente Prudente tem-se observado, através de fotografias aéreas de diferentes períodos, que formas tecnogênicas degradacionais, principalmente processos erosivos em áreas de solo exposto, têm sido recobertas por sedimentos advindos do entorno. Esses sedimentos podem ser considerados como tecnogênicos ao serem relacionados com processos erosivos de origem antrópica em áreas a montante das feições erosivas recobertas e, também, quando há ação mecânica direta de sobreposição dessas feições, com aterramentos.

Estas áreas são passíveis de serem mapeadas (Figura 9). Além das feições erosivas, várias áreas de nascentes e cursos d’água têm passado por processos de assoreamento e aterramentos, fato observado ao comparar as fotografias aéreas.

Figura 9: Formas e feições tecnogênicas associadas aos compartimentos de relevo no Distrito Industrial I – Antônio Crepaldi.

Por conseguinte, uma área que num determinado momento da história apresentou feições degradativas, passa a apresentar feições agradativas, devido ao acúmulo de materiais tecnogênicos. O contrário também ocorre, exemplificado pela presença de feições erosivas em áreas de deposição tecnogênica. Assim, um depósito tecnogênico pode dar origem a outra deposição tecnogênica, através de processos erosivos ou mesmo ação direta de retirada e relocamento de material.

Na área do Distrito Industrial I – Antônio Crepaldi, há a presença do atual depósito de resíduos sólidos do município de Presidente Prudente, no compartimento do topo (Figura 9). Apesar dos materiais presentes serem considerados como deposição tecnogênica de material gárbico, foi reconhecida a formação tecnogênica a jusante, na área da vertente (SILVA, 2012), na qual os materiais presentes foram carreados da área do depósito de resíduos sólidos. É importante mencionar que a área do “lixão” localiza-se próximo a diversas nascentes, o que pode ocasionar contaminação dos cursos d’água.

A deposição de materiais gárbicos podem ocasionar graves problemas. Peloggia (1998, p. 133) menciona que:

Conforme Fanning & Fanning (1989), os “solos criados pelo homem” que provavelmente causarão os maiores problemas no futuro são aqueles em que os detritos orgânicos são soterrados. Depósitos nos quais materiais de lixo (material “gárbico”) são enterrados podem dar lugar: a) a subsidências das superfícies dos terrenos; b) a riscos de explosões em função da geração de metano e outros gases naturais sob condições anaeróbicas; c) à contaminação das águas subterrâneas com substâncias químicas.

O fundo de vale localizado na Vila Nova Prudente é outro exemplo de área cuja deposição de resíduos sólidos domésticos possui relação com a formação de depósito tenogênico a jusante, na área da antiga planície aluvial. Devido às alterações causadas na planície, pelo acúmulo de material tecnogênico, a área passa a ser considera como uma planície tecnogênica, termo utilizado por Peloggia (1998) para as áreas de planície que sofrem modificações drásticas por ação da sociedade. Esta área sofre alterações relativas aos diferentes usos que ocorreram e ainda ocorrem em seu interior e nas adjacências.

Silva (2012; 2016) menciona que o uso urbano a montante relaciona-se a presença de materiais úrbicos. Também, no período de implantação do loteamento, pode ter ocorrido intensificação no aporte de sedimentos para o interior da planície, devido ao solo exposto. O uso rural, observado no interior da planície e adjacências, também é relacionado à retirada da vegetação nativa e, atualmente, observa-se a presença de gramíneas e alguns fragmentos de mata. A presença de fragmentos de carvão vegetal nas deposições tecnogênicas no local são relacionadas às queimadas, historicamente utilizada para a “limpeza” dos terrenos. E a presença da deposição de resíduos sólidos domésticos aterrados próximo ao estacionamento do Recinto de Exposições, entre 1983 e 1984 (MAZZINI, 1997), exerce papel de área fonte de parte significativa dos materiais úrbicos e gárbicos presentes no interior da planície.

Nos últimos anos, tem sido observada a intensificação do processo erosivo nesta área de planície tecnoênica, erodindo o corpo da deposição tecnogênica. A Figura 10 mostra a localização da antiga área de deposição de resíduos sólidos, da feição erosiva (ravina) na área da planície, ao sul do bairro, e um exemplo de amostra de depósito tecnogênico coletada, com destaque para a presença de materiais úrbicos em profundidade de 1,5 m.

Figura 10: Feição erosiva e deposições tecnogênicas nas adjacências da Vila Nova Prudente.

Estes são alguns exemplos das deposições tecnogênicas estudadas em Presidente Prudente, bem como das alterações nos aspectos do relevo em decorrência da ação da sociedade. De forma geral, observa-se que no meio urbano essas formações são mais facilmente observadas devido:

1) alterações nas características do relevo para implantar os loteamentos, por exemplo em processos de terraplanagem;

2) impermeabilização dos solos alterando os processos de infiltração e escoamento e, consequentemente, modificando as características dos processos erosivos e deposicionais nas áreas adjacentes, como em fundos de vale;

3) produção significativa de resíduos sólidos em decorrência da maior densidade de pessoas no meio urbano, comparado ao meio rural, e hábitos de consumo, com produção de resíduos em boa parte não orgânicos.

No meio rural, os depósitos tecnogênicos são em boa parte originados pelos processos erosivos intensificados e, também, por meio de deposição de resíduos sólidos no solo, este em menor expressão que no meio urbano.

  Referências Bibliográficas

MAZZINI, E. J. De lixo em lixo em Presidente Prudente (SP): novas áreas, velhos problemas. 1997. 96 f. Monografia (Bacharelado em Geografia) Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

PELOGGIA, A. U. G. O homem e o ambiente geológico: geologia, sociedade e ocupação urbana no município de São Paulo. São Paulo: Xamã, 1998.

PELOGGIA, A. U. G.; SILVA, E. C. N.; NUNES, J. O. R. Technogenic landforms: conceptual framework and application to geomorphologic mapping of artificial ground and landscape as transformed by human geological action. In: Revista Quaternary and Environmental Geosciences, Curitiba, v.5, n.2, p. 28-40, 2014. Disponível em: < http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/abequa/article/view/34811>. Acesso em 7 dez. 2014.

SILVA, E. C. N. Formação de depósitos tecnogênicos e relações com o uso e ocupação do solo no perímetro urbano de Presidente Prudente – SP. 2012. 183 f. Dissertação (Mestrado em Geografia). Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

SILVA, E. C. N. Formação de depósitos tecnogênicos nas proximidades do Conjunto Habitacional Jardim Humberto Salvador e Augusto de Paula na cidade de Presidente Prudente – SP. 2009. 89 f. Monografia (Bacharelado em Geografia). Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

GLOSSÁRIO

ASSOREAMENTO: é o acúmulo de sedimentos e outros materiais, como fragmentos de resíduos sólidos, nos rios, lagos e demais corpos d’água, causando alterações como turbidez da água, diminuição do volume de águas nos rios e dificuldades de manutenção da vida nesses ambientes. Uma das causas do assoreamento é o desmatamento ocasionado pela ação da sociedade, que acaba por intensificar os processos erosivos e, consequentemente, os sedimentos oriundos desses processos dão origem ao assoreamento.

ÁREAS DE EMPRÉSTIMO DE SOLOS: áreas com presença, em geral, de solos profundos, em que, através do uso de maquinários, é retirada porções elevadas desses solos para serem depositadas em outra área, como locais que necessitam de mais solo para nivelar a superfície antes de uma construção.

ÁREA DE PRESERVAÇÃO PERMANENTE: são áreas protegidas nos termos da lei, geralmente resquícios florestais de diversas formas de vegetação, localizadas ao longo dos cursos d’água. Sua função é a proteção desses cursos d’água, dos solos e demais elementos naturais das paisagens.

COTA ALTIMÉTRICA: é o valor que marca a altitude de determinada superfície. Possui como referência o nível do mar, que é a cota de altitude 0. Em Presidente Prudente, por exemplo, na área central, a cota altimétrica é em torno de 470 metros, ou seja, 470 metros de altitude acima do nível do mar.

FOTOGRAFIAS AÉREAS: são fotografias tiradas a partir de uma posição elevada, utilizadas para coletar informações da superfície, como aspectos do uso e ocupação da terra, tipos de vegetações predominantes, presença de feições erosivas e outras.

LIXÃO: deposição de resíduos sólidos diretamente sobre o solo, permanecendo exposto à céu aberto. Gera problemas como a infiltração de chorume e contaminantes nos solos e aquíferos, proliferação de animais e insetos que causam diversas doenças no ser humano, contaminação de cursos d’água, etc.

PROCESSOS EROSIVOS DE ORIGEM ANTRÓPICA: são processos erosivos acelerados pela ação humana. Um exemplo é a ocorrência de erosões numa área após a retirada da cobertura vegetal pela sociedade, deixando o solo exposto à ação do vento e chuvas.

RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS: são materiais que resultam de atividades humanas e que podem servir de matéria-prima para outras atividades, através da reciclagem, reutilização, compostagem (no caso de resíduos de origem orgânica), etc. Ao serem reaproveitados para ouras atividades, diminui-se a quantidade de materiais que são depositados na forma de aterros e lixões, este último sendo a destinação menos adequada aos resíduos sólidos pela possibilidade de contaminação de solos, rios, aquíferos, proliferação de doenças, e outros problemas.

SEDIMENTOS: são materiais que se originam a partir do intemperismo e erosão de rochas e solos, sendo transportados por rio, vento, etc., e que normalmente se acumulam em locais mais baixos no relevo, como nos fundos de vale. São, portanto, pequenos fragmentos de rochas e partículas de solos.

TERRAPLANAGEM: é uma técnica bastante utilizada para adequar o terreno às atividades humanas, como a construção civil. Para essa adequação do terreno, a terraplanagem pode consistir em escavação e preenchimento de um local com solo, alterando a forma da superfície (em geral, deixando-a mais plana). Antes de iniciar o loteamento de uma área, para que ocorra a construção de residências, prédios, etc., muitas vezes é necessária a terraplanagem, o que gera grande movimentação de terra de uma área para outra.


Derivações Ambientais

Transformações no Relevo: Para onde vai a água da chuva?

Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia; Nayara Rodrigues da Silva

Nas bacias hidrográficas, em condições naturais, existe um contínuo ajuste entre as formas de relevo e a água precipitada. Por exemplo, ao observarmos uma colina em perfil, podemos perceber um equilíbrio entre áreas propensas à infiltração (topos e fundos de vale) e áreas com tendências ao escoamento superficial (vertentes). (Figura 1)

Figura 1 - Componente dos fluxos de escoamento e infiltração de água superficial e de subsuperfície no relevo.

Também as formas das vertentes controlam os fluxos de águas que escoam superficialmente, fazendo com que sejam mais concentrados nos segmentos côncavos, dispersos nos segmentos convexos ou uniformes nos segmentos retilíneos (Figura 2).

Figura 2 - Formas de vertentes e os seus respectivos escoamentos superficiais de água

Quando uma bacia hidrográfica é urbanizada, além da retirada da cobertura vegetal que favorecia a infiltração das águas, as superfícies sofrem impermeabilização. Desse modo, tem-se uma redução drástica das áreas que permitiam a infiltração das águas e aumenta-se o escoamento superficial (Figura 3).

Figura 3 - Fluxos de escoamento conforme a cobertura do terreno.

Como consequência, toda a água que precipita sobre a bacia hidrográfica, rapidamente atinge os fundos de vales e rios, causando enxurradas, alagamentos e inundações. Além disso, a redução da infiltração impede o abastecimento de água no lençol freático e a recarga permanente das nascentes, fazendo com que algumas delas sequem nos períodos de estiagem.

Em Presidente Prudente, um estudo realizado na bacia hidrográfica do Córrego do Veado (bacia hidrográfica totalmente inserida na área urbanizada, com 75% de sua área impermeabilizada), demonstrou as modificações no comportamento hidrodinâmico decorrentes da ocupação urbana (Figuras 4,5 e 6).

Figura 4 – Geomorfologia e hidrodinâmica pré-urbanização

Figura 5 – Uso do solo e comportamento hidrodinâmico atual

Figura 6 - Modificações no comportamento hidrodinâmico da bacia hidrográfica do Córrego do Veado

Conforme se observa, houve redução significativa da capacidade de infiltração e também na tendência ao escoamento superficial difuso. Por outro lado, houve grande incremento na tendência ao escoamento superficial concentrado. Cumpre ressaltar que, em relação à capacidade de armazenamento, função desempenhada pelas planícies fluviais, considerou-se que cerca de 70% das áreas de planícies fluviais originais ainda desempenham essa função por possuírem alguma cobertura vegetal. Entretanto, grande parte dessas áreas foi objeto de obras de aterros e teve os cursos d’água tamponados, desempenhando agora a função de parques lineares, com cobertura vegetal predominantemente composta por gramíneas. Assim, acredita-se que sua capacidade de armazenamento se encontra bastante reduzida.

A bacia hidrográfica do Córrego do Veado apresenta-se quase que totalmente impermeabilizada, o que implica em aumento do escoamento superficial, sobretudo concentrado. Como resultado, tem-se um menor tempo de concentração de água e menor capacidade de retenção na bacia por conta da redução na capacidade de infiltração, ou seja, quando chove as águas atingem rapidamente os fundos de vales e os rios. Assim, tem-se um aumento na frequência e magnitude de eventos como enxurradas, alagamentos e inundações.

A Figura 7 mostra uma situação de vazão após 2 dias consecutivos sem chuvas. As últimas precipitações, de acordo com o INMET ocorreram no dia 30/10/2014 (17 mm) e 31/10/2014 (15 mm). A foto 8 mostra a situação de chuvas acumuladas de dois dias consecutivos (27mm no dia 03/11/2014 e 48 mm dia 04/11/2014). Observa-se que o nível de água dos rios sobe rapidamente quando chove.

Figura 7 - Córrego do Veado – 02/11/2014

Figura 8 - Córrego do Veado – 04/11/2014

A Figura 9 mostra um ponto de alagamento no dia 04/11/2014 enquanto que a Figura 10 mostra um dos frequentes episódios de alagamento no Parque do Povo, implantado sobre o Córrego do Veado. A Figura 10 refere-se ao dia 02/04/2013, após uma precipitação de 25 mm, que durou cerca de uma hora. (FOGLIA & MATIAS, 2013)

Figura 9 - Ponto de alagamento no cruzamento da Av. Salim Farah Maluf e Av. Presidente Juscelino Kubitschek (04/11/2014)

Figura 10 – Parque do Povo inundado em dezembro de 2015


Derivações Ambientais

Hidrografia: E agora, cadê os rios?

Isabel Cristina Moroz-Caccia Gouveia; Nayara Rodrigues da Silva

Cerca de 17% de toda a rede de drenagem do município encontra-se dentro do perímetro urbano. Conforme já destacado, muitos destes canais fluviais que sofrem a pressão da ocupação urbana, correspondem a nascentes e cursos superiores de importantes bacias hidrográficas, inclusive utilizadas para o abastecimento público de Presidente Prudente e de outros municípios. Destaca-se ainda, que a sub-bacia do Córrego do Veado (afluente do Córrego do Limoeiro) encontra-se totalmente inserida no meio urbano.

O crescimento e o adensamento de áreas urbanas vêm provocando diferentes mudanças no meio ambiental natural, tais como: aterramento de nascentes, impermeabilização dos solos, cortes e aplainamentos de vertentes, retificações e canalizações em rios e córregos. Essas modificações perturbam diretamente a paisagem e a dinâmica de bacias hidrográficas. Como consequência temos a ocorrência ou o agravamento dos chamados problemas ambientais urbanos (inundações, alagamentos, enxurradas, deslizamentos de terra, etc), gerados pela degradação do meio ambiente, muitas vezes em prol do “desenvolvimento e progresso”.

Em 1917, o primeiro núcleo urbano de Presidente Prudente foi criado e logo em seguida, em 1919, a estação ferroviária da Alta Sorocabana foi inaugurada sobre o espigão central, o divisor de águas que separa as bacias hidrográficas dos rios Santo Anastácio e do Peixe. Após a consolidação do primeiro núcleo urbano, inicia-se o processo de urbanização da área com a criação de loteamentos e arruamentos, conforme podemos observar na Figura 1.

Figura 1 - Expansão da Malha Urbana de Presidente Prudente entre 1917 a 2016

Conforme pode ser observado na animação, Presidente Prudente,SP expandiu o seu perímetro e malha urbana e assim o número de loteamentos e arruamentos aumentou consideravelmente. Como consequência da urbanização e crescimento da cidade, os rios e córregos e demais componentes originais da paisagem foram modificados.

Podemos notar na Figura 1, que a ocupação urbana em Presidente Prudente, inicialmente estava restrita ao topo aplainado do espigão divisor de águas, ou seja, próxima à estação ferroviária e se expandiu pelas áreas de nascentes e mais tarde, para os fundos de vale, exigindo a canalização de alguns trechos de córregos e rios.

Ao analisar a Figura 1 fica evidente que a mancha urbana se espalhou ocupando e modificando vários cursos d’água. A Figura 2 apresenta a atual situação dos cursos d’água no perímetro urbano.

Figura 2 - Situação atual dos rios e córregos no perímetro urbano de Presidente Prudente, SP, Brasil.

A bacia hidrográfica do Córrego do Veado é um ótimo exemplo para ilustrar como a ocupação territorial urbana de Presidente Prudente implicou em modificações na rede hidrográfica, pois encontra-se totalmente inserida na área urbanizada.

Segundo Silva (2016), atualmente a bacia hidrográfica do Córrego do Veado possuí somente 9% de seus canais fluviais semi-preservados, ou seja, com pouca intervenção antrópica. Porém, temos em torno de 63% de canais fechados (tamponados) e 28% de canais canalizados e retificados, porém abertos (canalização aberta) (Figura 3). Tais perturbações nos canais fluviais geram o aumento do escoamento superficial e a sua rápida concentração em suas antigas planícies de inundação (áreas que armazenam temporariamente as águas que extravasam do leito fluvial em eventos de inundações).

Figura 3 – Situação dos canais fluviais da bacia hidrográfica do Córrego do Veado.

A prática de canalizar os rios urbanos

Segundo Tucci (2003)(1) a política existente de desenvolvimento e controle dos impactos na drenagem urbana se baseia no conceito de escoar a água precipitada o mais rápido possível. Este princípio foi abandonado nos países desenvolvidos no início da década de 1970. A consequência imediata dos projetos baseados neste conceito é o aumento das inundações a jusante devido à canalização. Na medida em que a precipitação ocorre, e a água não é infiltrada, este aumento de volume, da ordem de seis vezes, escoa pelos condutos. Para transportar todo esse volume, é necessário ampliar a capacidade de condutos e canais ao longo de todo o seu trajeto dentro da cidade até um local onde o seu efeito de ampliação não atinge a população. A irracionalidade dos projetos leva a custos insustentáveis, podendo chegar a ser dez vezes maior do que o custo de amortecer o pico de inundações e diminuir a vazão máxima para jusante através de uma detenção. Portanto, o paradoxo é que países ricos verificaram que os custos de canalização e condutos eram muito altos e abandonaram esse tipo de solução (início dos anos 1970), enquanto países pobres adotam sistematicamente essas medidas, perdendo duas vezes: custos muito maiores e aumento dos prejuízos.

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252003000400020

Veja também o que a Geóloga Lígia Nunes Costa (LNC), diz sobre a canalização de rios:

(Entrevista - Canalização dos rios mascara problemas urbanos, revista CREA-BA, 05/05/2011, Edição 35. Disponível em: http://www.creaba.org.br/Artigo/387/Entrevista--Canalizacao-dos-rios-mascara-problemas-urbanos.aspx)

Quais são as consequências diretas do tamponamento dos canais?

LNC - A artificialização dos canais de drenagem é uma prática corrente na maioria das cidades brasileiras, que, infelizmente, tem ido de encontro à tendência adotada mundialmente de resgate das paisagens naturais, tão bem sucedida, a exemplo do Rio Cheonggyecheon, na Coreia do Sul. Entre suas consequências, pode-se destacar a alteração do ciclo hidrológico. Com o leito de rios e córregos revestidos por materiais impermeáveis, a água não se infiltra no solo e, consequentemente, não chega aos lençóis freáticos subterrâneos. Sem obstáculos naturais, os cursos d’água correm mais rápido em canais lineares. Evitam-se inundações em um determinado trecho, mas elas passam a ser mais destrutivas em trechos mais à frente, uma vez que a água chega com uma velocidade bem maior. A aceleração das águas contribui para a eliminação das comunidades aquáticas.

A impermeabilização do solo e a canalização dos rios agravam a ocorrência de enchentes?

LNC - As enchentes têm sido causadas, na grande maioria das vezes, pela impermeabilização do solo. A canalização é, na verdade, uma máscara para os problemas urbanos. Essa medida ignora as características naturais dos cursos d’água e, principalmente, o fato de eles serem fundamentais à regulação climática, à biodiversidade, à vida. As canalizações de rios e córregos urbanos produzem um efeito cumulativo e sinérgico de bombas d’água. As margens de rios e córregos devem escoar em leito natural. A infiltração é importante para regularizar a quantidade de água dos rios e córregos e proporcionar seu escoamento subterrâneo até os mares e oceanos. Sem infiltrar, mais água é retida na superfície, provocando inundações nas áreas mais baixas. Cobertos por grandes avenidas, muitos cursos d’água são lembrados somente ao transbordarem, quando o volume de água e lixo ultrapassa a capacidade de retenção de suas galerias.

Você conhece o Córrego do Veado?

Pois é...grande parte dele encontra-se “escondido” embaixo do Parque do Povo!

Hoje, no perímetro urbano, podemos encontrar nossos rios em “três situações” que são: rios com canalização fechada, rios com canalização aberta e rios semipreservados (que possuem a morfologia original e/ou mata ciliar em suas margens, o que não significa qualidade de água), além de corpos d’água em forma de lagos, lagoas e açudes como podemos observar no Quadro 1.

Quadro 1 - Tipos de morfologia dos canais fluviais

  Referências Bibliográficas

MOROZ-CACCIA GOUVEIA, I. C. & GOUVEIA, J. M. C. Estimativa de mudanças nas taxas de processos hidrodinâmicos em bacias hidrográficas urbanas: contribuições da cartografia geomorfológica. XI ENANPEGE, Presidente Prudente, 2015, p. 10648-10659.

SILVA, N. R. da. Mudanças Hidrogeomorfológicas decorrentes da Urbanização na Bacia Hidrográfica do Córrego do Veado, no perímetro urbano do município de Presidente Prudente/SP. Relatório Final de Pesquisa em nível de Iniciação Científica (IC), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Processo: 2015/06175-2, UNESP, Presidente Prudente, 2016.

SILVA, E. C. N. Reconstituição Geomorfológica do Relevo Tecnogênico em Presidente Prudente-SP. 2015. 178 f. Relatório de Qualificação (Doutorado em Geografia). Faculdade de Ciência e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente.

TUCCI, C. E. M. Drenagem urbana in Ciência e Cultura. vol. 55 n.4, SBPC, São Paulo, Oct./Dec. 2003, p. 36-37. Disponível em:http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252003000400020&lng=pt&nrm=iso. Acessado em março de 2017.


Derivações Ambientais

Biosfera: Fauna e Ameaças a Saúde Pública

Baltazar Casagrande; José Mariano Caccia Gouveia; Patricia Sayuri Silvestre Matsumoto; Raul Borges Guimarães

As significativas mudanças no conjunto de atributos da paisagem, ocasionadas pela transformação do ambiente natural em um espaço urbano, alteram radicalmente os fatores que atuam sobre as populações de animais. Aspectos tais como a necessidade de território de sobrevivência, a disponibilidade de água e alimento, a existência de abrigos e/ou locais de nidificação, a alteração na relação entre número de presas e predadores – e, para algumas espécies, até mesmo a excessiva iluminação durante a noite -, afetam de forma diferenciada as diversas espécies animais. Algumas espécies são muito prejudicadas, fazendo-as desaparecerem do meio urbano, enquanto outras são amplamente favorecidas. Estas, muitas vezes podem, inclusive, tornarem-se ameaças à saúde pública.

Um bom exemplo de como isso pode ocorrer consiste na relação de predação entre ratos urbanos (Figura) e corujas (Figura 2).

Figura 1 - Ratos urbanos: proliferação facilitada

Como roedores onívoros, os ratos urbanos possuem sua sobrevivência amplamente facilitada pela implantação da infraestrutura urbana à qual se somam alguns hábitos reprováveis das populações residentes nas cidades. Quando uma cidade se instala ou se expande, desenvolve em seu subsolo uma complexa rede de tubulações como galerias de águas pluviais, redes de esgoto, dutos para fiação elétrica e de comunicação, córregos e rios canalizados, e “ocos” que se tornam abrigo e refúgio a diversas espécies de ratos.

Portanto, abrigo e território disponibilizado em abundância. Alimento também não lhes faltam: estão disponíveis nas vias públicas e terrenos baldios em que se depositam resíduos domésticos, nos pratos de rações dadas aos animais de estimação, nos alimentos descartados nas sarjetas, e em diversas outras situações corriqueiras no meio urbano. Assim, com espaço, abrigados e alimentados, dedicam-se com toda a energia àquilo que fazem de melhor: a reprodução. E, as espécies denominadas “ratos urbanos” (ratazanas, ratos e camundongos) possuem uma capacidade reprodutiva exacerbada: atingem rapidamente a maturidade sexual, possuem alta taxa de fecundidade e de natalidade, e mantêm a capacidade reprodutiva por longo tempo. Na natureza, como acontece com inúmeras espécies de roedores, o rápido crescimento populacional é mantido em índices equilibrados graças à ação de seus diversos predadores. Mas, e no meio urbano?

Figura 2 - Coruja capturando rato: relação de predação

Sendo as diferentes espécies de corujas as principais predadoras de roedores, o “controle biológico” na proliferação de ratos deixa de ocorrer. E por que isso ocorre? Porque, ao contrário dos roedores, para elas o meio urbano limita drasticamente as suas possibilidades de sobrevivência. Animais de hábitos noturnos, utilizam-se da audição e da visão aguçadas para localizar suas presas e deslocarem-se por seus territórios. Assim, os ruídos excessivos e a iluminação noturna funcionam como obstáculos e ocasionam a sua expulsão do local em busca de locais mais adequados. Como nidificam em árvores e no solo, também sua reprodução é afetada, levando ao gradativo desaparecimento dessas espécies no meio urbano. E, além disso, muitas corujas acabam sendo vitimadas por pessoas que as consideram aves de “mau agouro”.

Assim, as mesmas transformações que favoreceram extremamente a multiplicação dos roedores, expulsam e/ou exterminam aqueles animais que poderiam controlar sua proliferação, como corujas e outras aves de rapina, cobras, pequenos carnívoros, etc. Desses desequilíbrios podem derivar uma série de problemas aos cidadãos urbanos, tanto de ordem econômica nos gastos realizados com controle de pragas e perda de alimentos, quanto para a saúde pública através da proliferação de doenças e da utilização indiscriminada de venenos que contaminam águas, alimentos e pessoas.

Por outro lado, diversas espécies de aves (exóticas e nativas), ao contrário das corujas, conseguem se adaptar e sobreviver no meio urbano. A diversidade de espécies de aves no meio urbano é um bom indicador da qualidade ambiental, seja ela boa ou ruim e da interação entre áreas verdes existentes na cidade e no campo. Um estudo realizado no campus da UNESP de Presidente Prudente (Rubens de Jesus Matos, Revista Formação Online, n. 18, volume 2, p. 66-78, jul./dez., 2011) identificou cinquenta e sete espécies de aves, distribuídas em 28 Famílias, com hábitos alimentares diversificados. Esses pássaros foram agrupados em cinco grupos, segundo seus hábitos alimentares distintos (Quadro 1).

Quadro 1 - Espécies registradas no campus da Faculdade de Ciência e Tecnologia de Presidente Prudente (FCT/UNESP)

Grupo 1: composto por consumidores primários (herbívoras), que possuem uma dieta exclusivamente de sementes, folhas, frutos e néctar (Figura 3).

Figura 3 - Espécie Columba lívia próximo à cantina universitária. Espécie Aramides cajanea próximo ao lago da universidade

Grupo 2: composto por aves que tem dieta baseada exclusivamente em insetos, artrópodes e pequenos peixes, podendo também consumir alimentos do grupo 1 (Figura 4)

Figura 4 - Espécie Nyctibius griseus estático e camuflado encima de um calho seco próximo aos prédios administrativos.

Grupo 3: aves caçadoras de outras aves, pequenos mamíferos, roedores, cobras e peixes (carnívoras). Neste grupo encontram-se principalmente as aves de rapina (Figura 5).

Figura 5 - Espécie Athene cunicularia próximo à moradia estudantil da universidade.

Grupo 4: aves que se alimentam essencialmente de organismos em decomposição (detritívoras); vale lembrar que estes animais são fundamentais para o saneamento de todo o ecossistema (Figura 6).

Figura 6 - Espécie Coragyps atratus encima do telhado da cantina universitária e próximo à lixeira de materiais recicláveis

Grupo 5: espécies onívoras, com hábitos alimentares variados, incluindo em seu cardápio alimentos dos quatro grupos anteriores (Figura 7).

Figura 7 - Espécie Caracara plancus caçando ninhos de outras aves. Espécie Pitangus sulphuratus próximo à direção do campus.


Derivações Ambientais

Perfil Epidemiológico de Presidente Prudente

Baltazar Casagrande; Patricia Sayuri Silvestre Matsumoto; Raul Borges Guimarães

ZOONOSES EM PRESIDENTE PRUDENTE

As zoonoses são consideradas um grave problema de saúde pública e têm seu ciclo de transmissão envolvendo os animais e o homem. Dentre estas doenças destaca-se a Leishmaniose Visceral (LV), conhecida também como Calazar, esplenomegalia tropical e febre dundun. Anteriormente era uma doença de caráter eminentemente rural, recentemente, vem se expandindo para áreas urbanas de médio e grande porte. Segundo a Organização Mundial da Saúde (WHO, 2014).

Figura 1 - Fase aguda: pacientes com Leishmaniose Visceral (Fotos 1 e 2). Foto 3 período de estado.

A LV é uma zoonose, ou seja, uma doença infecto-parasitária, crônica e sistêmica causada por protozoários, do gênero Leishmania, transmitidos por insetos vetores (flebotomíneos), que quando infectados, infectam animais e seres humanos. Os animais reservatórios da doença são o cão (Canis familiaris) em área urbanas e as raposas (Dusicyon vetulus e Cerdocyonthous) e os marsupiais (Didelphis albiventris) em áreas rurais (Figura 2). Esta doença quando não diagnosticada e tratada, pode evoluir para óbito em quase 100% dos casos (BRASIL, 2014).

Figura 2 - Ciclo da leishmaniose Visceral

No estado de São Paulo, para se definir a situação de cada município, utiliza-se a classificação epidemiológica da LV preconizada pelo Programa de Vigilância e Controle do Ministério da Saúde, definido por uma segmentação dos municípios a partir da confirmação de casos e sua transmissão no estado (BRASIL, 2013).

De acordo com a classificação epidemiológica do Boletim Epidemiológico Paulista (BEPA, 2015), até dezembro de 2014, 132 municípios foram notificados com transmissão de LV, sendo que: 76 municípios apresentaram casos humanos e caninos autóctones, nove municípios registraram somente casos humanos autóctones, sem detecção de autoctonia canina e 47 municípios apresentaram somente transmissão canina (Figura 3).

Figura 3 - Classificação dos municípios para Leishmaniose Visceral no estado de São Paulo

Sendo assim, o perfil epidemiológico da LV no estado de São Paulo modifica-se quanto a transmissão canina, humana ou ambas.

Em Presidente Prudente, o aparecimento de casos da doença é recente. Em 2009 foi encontrado o vetor (Lutzomyia Longipalpis – Figura 4, 5 e 6), em 2010 foi notificado o primeiro caso canino e em 2013 foi diagnosticado o primeiro caso humano (MATSUMOTO, 2014). Assim, atualmente, Presidente Prudente é considerado um município com transmissão canina e humana.

Figura 4 - Imagens de Flebotomíneos. Foto 1: Armadilha para captura de flebotomíneos (CDC modificada). Foto 2: flebotomíneos capturados. Foto 3: flebótomo individualizado

Figura 5 – Lâmina de flebotomíneo fêmea com zoom na espermateca

Figura 6 – Lâmina de flebotomíneo macho com zoom na terminália

Por possuir casos humanos, há também uma classificação epidemiológica de acordo com a frequência do número de casos por triênios. Os municípios são classificados periodicamente em três anos, sendo de transmissão esporádica, moderada ou intensa (Figura 2). Considera-se nesta classificação, a média de casos no período de três anos consecutivos: transmissão esporádica com média < 2,4 casos, transmissão moderada ≥ 2,4 a < 4,4 casos e transmissão intensa ≥ 4,4 casos (BEPA, 2015).

No estado de São Paulo, até 2014, 84 municípios (13,02%) registraram casos de LV (CVE, 2017) e foram classificados como se pode observar na Figura 7.

Figura 7: Classificação epidemiológica dos municípios para casos humanos.

A classificação epidemiológica de Presidente Prudente é considerada como esporádica, tendo uma variação média < 2,4 casos. Em uma evolução temporal das estatísticas da LV em Presidente Prudente quanto aos casos diagnosticados de LVC, número de casos, incidência acumulada, prevalência e Inquérito Sorológico Canino, podem ser sistematizados na Tabela 1 seguinte:

Tabela 1: Presidente Prudente - SP - Prevalência e Incidência de Leishmaniose Visceral Canina (LVC)

Os dados notificados no ano de 2010 não necessariamente são deste ano: podem ser anteriores, porém somente foram notificados em 2010.*Prevalência de casos de LVC de 2010 a 2013. Cadastro de dados antes de 2010. Inquérito Sorológico Canino no ano de 2013 estava sendo realizado.

Ainda que com prevalências baixas comparadas a outros municípios paulistas, a presença de casos caninos e casos humanos em Presidente Prudente representam um grave problema de saúde pública.

Diversos estudos têm sido realizados na tentativa de minimização dos casos ou controle da doença. Estudos locais da LV se tornam importantes alternativas visando o controle das ações de intervenção e planejamento da Vigilância Epidemiológica.

A análise espacial de doenças representa uma grande contribuição nos estudos das enfermidades, isso porque possibilita a apreensão da visualização cartográfica associada à informação convencional. O geoprocessamento, o Sensoriamento Remoto e as ferramentas de Sistemas de Informação Geográfica permitem a manipulação de banco de dados que dão suporte a consultas que indicam características e podem definir padrões e perfis acerca das doenças.

Figura 8. Presidente Prudente. Inquérito sorológico canino, estimativa de cães e casos de Leishmaniose Visceral Canina (2010-2013)

Figura 9 - Casos de Leishmaniose Visceral Canina

ESCORPIONISMO EM PRESIDENTE PRUDENTE

O escorpionismo, assim como a Leishmaniose Visceral, representa um importante problema de saúde pública. É causado pela picada de animais peçonhentos, escorpiões (Figura 10). Segundo o SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), o escorpionismo é um dos principais problemas de saúde ambiental enfrentados no país a respeito de acidentes provenientes de animais peçonhentos.

A presença destes animais pode estar relacionada às condições ambientais e sociais desta localidade, como por exemplo: um clima favorável a adaptação dos escorpiões da família Buthidae; a falta de predadores naturais no meio urbano que favorece o aumento populacional dos escorpiões e alimento em abundância como baratas e gafanhotos.

Figura 10. Gênero Tityus Serrulatos (escorpião amarelo)

Recentemente, em Presidente Prudente, assim como em outros municípios paulistas, tem havido uma proliferação do número de escorpiões, aumentando a intensidade das notificações (Figura 11 e 12).

Figura 11. Presidente Prudente. Distribuição das notificações de escorpiões por setores censitários (2012/2013)

Figura 12. Presidente Prudente. Distribuição das notificações de escorpiões - centroides (2012/2013)

DENGUE EM PRESIDENTE PRUDENTE

A dengue é uma arboviroses que afeta o homem e constitui um sério problema de saúde pública no mundo, especialmente na maioria dos países tropicais, onde as condições ambientais, principalmente a temperatura, a precipitação, a radiação, a cobertura vegetal e a presença de criadouros favorecem o desenvolvimento e a proliferação do Aedes aegypti(Figura 13), principal mosquito vetor da doença que, nestes últimos anos, em função do processo de urbanização, foi reintroduzida no Brasil (BRASIL, 1997).

Figura 13: Mosquito Aedes aegypti

No estado de São Paulo podemos observar o gráfico da Figura 14 e a Figura 15 como a reinfestação do Aedes aegypti ocorreu durante a primeira metade da década de 1980 e evoluiu para os dias atuais.

Figura 14 - Gráfico dos Municípios infestados por Aedes aegypti no estado de São Paulo (1985 – 2012)

Figura 15 – Infestação de São Paulo por Aedes aegypti

Portanto no Brasil, a dengue é considerada uma doença reemergente, uma vez que foi erradicada, deixando de existir no território nacional por quase 60 anos, retornando com mais força recentemente, e por isso diz-se que foi reintroduzida (BRASIL, 2005) e atualmente apresenta uma tipologia de expansão para todo o pais conforme a Figura 16 (CATÃO, 2012).

Figura 16: Tipologia do dengue no território nacional

Existem muitos fatores que podem contribuir para a expansão das áreas de ocorrência da dengue, como: o processo de urbanização, a falta de saneamento básico, as variações climáticas, entre outras. As precipitações atmosféricas e as temperaturas elevadas geralmente mostram relação positiva com a transmissão da dengue (FORATTINI, 2002), conforme Figura 17 com a tipologia do dengue para o estado de São Paulo proposta por Catão (2012).

Figura 17: Tipologia do dengue no estado de São Paulo (2001 – 2011)

De acordo com os dados apresentados o estado de São Paulo vem aumentando os casos de dengue e por conseguinte as internações gerando gastos públicos e casos de óbtos (Figura 18 e 19).

Figura 18 - Gráfico das internações e formas mais graves de dengue no estado de São Paulo (2001- 2012)

Figura 19 - Gráfico dos óbitos decorrentes por dengue no estado de São Paulo (1986 - 2012)

No município de Presidente Prudente observa-se que nos meses de novembro a julho apresenta os casos notificados da doença, onde as temperaturas estão entre 20ºC a 25ºC e a precipitação pluviométrica ainda alta. Nota-se que no mês de fevereiro inicia-se um decréscimo de precipitação e um aumento considerável de casos notificados de dengue (Figuras 20 e 21). Isso pode ser explicado, pois existe um acúmulo de água em locais que favorecem a proliferação do mosquito, associado a altas temperaturas. Isso para um intervalo de tempo especifico, mas que é representativo para os demais anos (CASAGRANDE E SANTOS, 2015).

Figura 20 - Gráfico da relação de precipitação com os casos notificados de dengue em Presidente Prudente (2009 – 2010)

Figura 21 - Gráfico da relação da temperatura compensada média com os casos notificados de dengue em Presidente Prudente (2009 – 2010)

Estes dados revelam que existe uma relação entre a incidência de dengue e variáveis climáticas em Presidente Prudente/SP, pois ocorreu uma associação entre o número de casos, pluviosidade e temperatura, considerando o tempo entre o fato biológico, a transmissão e o registro dos casos no DATASUS. O período em que se constatou o maior número de casos notificados de dengue foi de fevereiro a abril de 2010; o pico ocorreu em março e abril (CASAGRANDE e SANTOS, 2015).

Mais informações podem ser obtidas acessando o SITE DO GRUPO DE PESQUISA do Laboratório de Biogeografia e Geografia da Saúde (GEOSAUDE).

  Referências Bibliográficas

BEPA. Bepa 143. [s.l: s.n.]. Disponível em: http://www.saude.sp.gov.br/resources/ccd/homepage/bepa/edicao-2015/edicao_143_-_novembro_3.pdf. Acesso em 18 de junho de 2016.

BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Instruções para pessoal de combate ao vetor - manual de normas técnicas. Brasília, 1997.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde – Guia de vigilância epidemiológica. 6 ed. 816p, Brasília, 2005.

BRASIL. Ministério da Saúde/ Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância epidemiológica. Brasília - DF, v. único. 812 p. 547-568. 2014.

BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de vigilância e controle da leishmaniose visceral. 1 ed. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2013. 122 p.

CASAGRANDE, B. e SANTOS, C. R. Clima urbano e dengue: uma análise dos casos notificados de dengue em Presidente Prudente/SP, 2099 – 2010. In: DIAS, L. S. e GUIMARÃES, R. B. Desafios da saúde ambiental. Tupã: ANAP, 2015. p. 68-76.

CATÃO, R. de C. Dengue no Brasil: Abordagem Geográfica na escala nacional. São Paulo, Cultura Acadêmica, 2012.

FORATTINI, O. P. Culicidologia médica: identificação, biologia e epidemiologia. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2002. 545p.

JEAN FARHAT DE ARAÚJO DA SILVA.Distribuição geográfica dos escorpiões no município de Presidente Prudente-SP nos anos de 2012 e 2013.Monografia. 2015. 55 f. (Bacharel em Geografia). Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. FCT/UNESP. Presidente Prudente, SP.

MATSUMOTO, P. S. S. Análise espacial da Leishmaniose Visceral Canina em Presidente Prudente – SP: abordagem geográfica da saúde ambiental. Dissertação. 2014. 128 f. (Mestrado em Geografia). Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. FCT/UNESP. Presidente Prudente, SP.

WHO - WORLD HEALTH ORGANIZATION. Disponível em http://apps.who.int/gho/data/node.main.NTDLEISHVNUM?lang=en. Acesso em 10 de set. de 2014.

GLOSSÁRIO

ARBOVIROSES: são doenças causadas por vírus e transmitidas aos seres humanos por artrópodes, como insetos e aracnídeos.

AUTÓCTONES: que é da região ou território

GÊNERO LEISHMANIA: é um gênero de protozoários da família Trypanosomatidae, que inclui os parasitas causadores das leishmanioses.

INFECTO-PARASITÁRIAS, CRONICAS E SISTÊMICAS: são as doenças causadas por protozoários, ácaros, vermes e insetos, mas que podem apresentar lesões causadas pelo agente.

INFESTAÇÃO: denominação frequentemente utilizada para designar a invasão e proliferação de parasitos não-microbianos no organismo do hospedeiro.

INFECÇÃO: refere-se ao processo que envolve a invasão, o desenvolvimento e a multiplicação de um microorganismo no organismo de um animal ou planta, causando doenças

LUTZOMYA LONGIPALPIS: conhecidos como flebotomíneos, mosquito palha, cangalhinha, freboti, sand fly e etc.

PROTOZOÁRIOS: são organismos unicelulares, eucarióticos e que apresentam nutrição heterotrófica.

ZOONOSES: são doenças típicas de animais e que podem ser transmitidas aos seres humanos. Os principais animais transmissores destas doenças são: cachorros, gatos, morcegos, ratos, aves e insetos.